“Aprenderão! Aprenderão! Dominarei esta terra! Botarei essas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força! Pela harmonia universal dos infernos! Chegaremos a uma civilização!”
Porfírio Diaz – personagem interpretado por Paulo Autran no filme Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha.
Em 22 de agosto, completou-se 40 anos da morte de Glauber Rocha, pouco mais de 20 dias depois de um incêndio que queimou um galpão da Cinemateca Brasileira, incluindo parte do acervo do cineasta.
Uma das obras mais importantes de Glauber é “Terra em Transe“. Na trama, Porfírio Diaz, interpretado por Paulo Autran, é um político delirante de extrema direita que faz um apelo à força para pôr ordem no que ele via como caos histérico na república fictícia de Eldorado.
Num dos momentos mais icônicos do filme, ele afirma que “pelo amor da força” nos levará a uma civilização.
Na prática, o que tem acontecido é justamente o contrário: o uso de uma força, de maneira organizada e coercitiva, para impor o caos em diversas frentes, e nos levar à barbárie.
Esse inferno planejado inclui a afronta às instituições democráticas, a disseminação de fake news, a queima da Amazônia, a destruição de povos originários, o genocídio da população negra, o desamparo e descrédito à ciência, a falta de investimento em pesquisa, a precarização da educação e, obviamente, a queima do nosso patrimônio histórico, cultural e artístico.
Nesse cenário desolado, resta esse balão queimando-se, quase como uma pergunta para a qual já se sabe a resposta: “chegaremos a uma civilização?“
