Artista formado na Unimontes reimagina o folclore brasileiro


Quando a noite vem
Tem Saci, Caipora e Curupira também
Bicho feio sempre tem
Ontem e hoje no além

Letra da Música “Bicho Feio“, de Almir Sater e Renato Teixeira
Concept Art do Boto (versão humana e versão demônio das águas) – Gabriel Alves Soares. Direitos do autor.

Redação do Cozinha Gráfica

A subutilização visual da riqueza do folclore brasileiro foi o tema do Trabalho de Conclusão de Curso do Licenciado em Artes Visuais Gabriel Alves Soares, que buscou resgatar a origem sombria das lendas que compõem essa mitologia nacional, produzindo representações dos seus personagens que escapassem da forma infantilizada com que ela costuma ser representada na grande mídia e que, em geral, dá o tom do imaginário popular.

Com o título “Reimaginando a Mitologia: Concepts Arts de personagens do Folclore Brasileiro para um game autoral“, a pesquisa, sob orientação do Prof. Me. Lucas Carvalho, estabeleceu-se em três vertentes:

Concept Art da Iara (versão sereia e versão demônio das águas) – Gabriel Alves Soares. Direitos do autor.

• Estudo do folclore brasileiro, suas lendas de origem, suas adaptações na cultura de massa e efeitos no imaginário popular.

 • Estudo do concept art (conceitualizações visuais desenvolvidas por artistas que servem como guia de personagens e outros elementos para um projeto ficcional em qualquer mídia) seus princípios, exigências e técnicas.

• Produção de concepts arts dos personagens do folclore brasileiro com base em um projeto de game autoral, trazendo-os numa abordagem mais realista e sombria, destinada ao público jovem-adulto.

O trabalho representa o culminar de uma pesquisa que já vem em desenvolvimento desde o quinto período, por meio de Iniciação Científica, com o apoio de bolsa do Programa Institucional de Iniciação Científica da Unimontes – BIC-UNI.

Nesse processo, o artista e pesquisador publicou artigo sobre a representação infantilizada do folclore brasileiro na cultura de massa e sobre a produção de concepts arts, a partir da experiência de produção da animação “O ataque” que, inclusive, fez parte do último CineÂnima. Concomitantemente, realizou um curso sobre concept art e pintura digital da Black Fox Studio.

Concept Art da Mula Sem Cabeça – Versão com capacete saindo fogo pelas ventas, com base numa citação de Monteiro Lobato – Gabriel Alves Soares. Direitos do autor.
Concept Art da Mula Sem Cabeça – Versão sem capacete – Gabriel Alves Soares. Direitos do autor.

O último passo foi efetivamente reimaginar visualmente esses personagens, dentro da perspectiva de um game autoral, cujo roteiro foi desenvolvido pelo próprio autor, criando um universo coeso e homogêneo.

Foram 11 personagens concebidos. 9 releituras do folclore brasileiro – algumas com mais de uma versão (Iara, Boitatá, Lobisomem, Boto, Corpo Seco, Mula Sem Cabeça, Curupira, Cuca e Saci) e mais dois personagens humanos inéditos para a narrativa: o protagonista José e o antagonista Paulo.

A seguir, uma entrevista com o artista e pesquisador:

Gabriel Alves Soares é concept artist, licenciado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes. Fotografia: Igor Veloso.

contato: gabrielsoares41298@gmail.com

De onde surgiu a ideia de reaimaginar visualmente o folclore brasileiro?

Em toda a minha infância, escutei diversas lendas sobre esses personagens e sempre imaginava algo assustador e tinha muitas imagens sobre eles na minha cabeça. Mas em nenhuma delas havia uma imagem infantilizada como frequentemente vemos em produções audiovisuais. Dessa maneira, sempre sonhei com uma imagem mais sofisticada desses personagens, algo que remetesse mais ao que era imaginado por mim. Vendo a presença das mitologias europeias em jogos como God of War e a influência que esses jogos têm nos jovens daqui, pensei em como seria interessante e importante reimaginar esses personagens com a perspectiva de produzir um game com a nossa mitologia.

Quais elementos são os mais importantes a se levar em consideração na produção de um Concept Art?

Existem diversos elementos importantes para produzir um concept art. Mas acredito que, além dos elementos técnicos, é importante que o artista tenha, com a ajuda do briefing, as exigências de seu público-alvo em mente [nota da edição: o briefing consiste num conjunto de perguntas sobre o personagem a ser desenvolvido que irão atribuir as características que seu design deve abarcar], mas que esteja pronto para modificar o seu design de acordo com as necessidades que surgirem durante o processo. O artista não deve se prender à imagem inicial que tem em mente e estar aberto a modificá-la para melhor execução do trabalho. Também é muito importante que se considere as características presentes nos personagens e as transmita em cada elemento presente neles.

Modelagem 3d do Lobisomem e Concept Art finalizado. O personagem foi concebido com base nas caraterísticas do Lobo Guará, canídeo típico da fauna brasilera – Gabriel Alves Soares. Direitos do autor.

Quais procedimentos técnicos você usou na produção dos seus Concepts Arts?

Foram utilizados dois softwares para a produção: o Zbrush para a modelagem 3d e o Photoshop para a pintura digital e texturização. Esses dois softwares forneceram a base para a produção dos conceitos. A partir de um esboço inicial, a modelagem 3D auxiliou em algumas questões de anatomia e luz e sombra para, em seguida, o projeto ser finalizado com a pintura digital e texturização. Esse procedimento foi aplicado na maioria dos personagens.

A culpa por essa imagem infantilizada que popularmente temos do folclore brasileiro é de Monteiro Lobato?

Muita gente atribui essa culpa ao autor. Entretanto, apesar de parte da sua obra ser voltada para o público infantil, ele fez livros sobre o folclore para o público adulto. E mesmo nos livros infantis, há vários elementos que podem ser considerados sombrios para seu público-alvo. Um exemplo é o livro “Saci Pererê: O resultado de um inquérito”, que reúne diversos relatos sobre esse personagem em suas mais diferentes versões.

Capa original da 1ª edição de “Saci Pereê: o resultado de um inquérito”, de 1918.

A capa da sua edição original, de 1918, traz a imagem do saci com chifres, dentes pontiagudos e olhos vermelhos, indicando que a imagem infantilizada não era exatamente a visão que o autor tinha desses personagens. Dessa maneira, se existe uma culpa dessa infantilização do folclore, essa culpa seria daqueles que interpretaram e adaptaram suas obras para a TV recorrentemente dessa maneira.

Na sua pesquisa sobre o folclore brasileiro, você se deparou com alguma história de origem ou informação inusitada sobre as lendas que conhecemos?

Várias! Mas o mais intrigante pra mim foi ter me deparado com descrições de uma mula sem cabeça que solta fogo pelas ventas – situação que o próprio Monteiro Lobato questiona através do personagem Pedrinho. No livro “O Saci” (1921), Pedrinho pergunta ao Saci como pode uma mula que não tem cabeça soltar fogo pelas ventas e o Saci apenas desconversa. Essa informação fez com que eu me colocasse o desafio de trazer essa versão à tona e foi daí que tive a ideia de fazer um conceito inicial da mula utilizando uma espécie de capacete que simula uma cabeça pela qual ela pode realmente soltar fogo pelas ventas. Esse livro também conta uma versão de origem da Mula em que ela seria uma rainha que foi amaldiçoada por canibalizar o corpo de um bebê no cemitério, muito diferente da história da “mulher do padre” com que estamos acostumados, e muito mais sombria.

Concept Art do Saci – Versão com e sem capuz – Gabriel Alves Soares. Direitos do autor.

Das imagens resultantes da sua pesquisa, teve alguma que você gostou mais? Por quê?

Achei que todas ficaram bem interessantes. Entretanto, o Saci foi o conceito final que mais gostei porque tenho um carinho muito grande pelo personagem. Ele é um dos personagens mais queridos do folclore e eu quis trazê-lo com uma forma de demônio, resgatando algumas das origens de sua lenda, mas sem deixar de lado sua personalidade. E esse trabalho superou minhas expectativas. Gostei muito do resultado e com certeza esse personagem terá uma importância muito grande dentro da narrativa do game que eu pretendo fazer.

Quais são os passos futuros ou desdobramentos que você pretende seguir para este trabalho?

Primeiro finalizar o roteiro e, com a história totalmente pronta, produzir ainda mais conceitos que mostrem ainda mais o que será o game, com seus ambiente e cenários, já que o concept art não se destina apenas à concepção de personagens. Desse modo, terei bastante material para apresentar o projeto a alguma empresa. A ideia desse game ainda está em fase inicial, mas já mostra grande potencial e, com certeza, não pretendo parar até que seja produzido. Acho que os gamers de todo o Brasil precisam disso.

Veja outros conceitos criados pelo artista:

Publicado por Cozinha Gráfica

Pesquisa e produção artística ampliada na web.

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