Faça arte boa / Faça arte ruim

Por Lucas Carvalho

Os textos abaixo integram o livro ainda inédito: “Manifestos não-manifestos: textos sobre arte“.

Faça arte boa
Faça are ruim

Desafio


Faça arte boa

Na dúvida, faça arte boa. Arte do apuro técnico, da expectativa definida, da experiência pré-determinada.

Faça arte que renda aceitação social, arte inequivocamente arte. Faça arte que permita uma boa noite de sono, que não deixe dúvidas acerca da sua qualidade. Faça arte que traga a congratulação entusiasmada, arte que pague as contas no final do mês.

Faça arte dentro dos parâmetros técnicos consolidados. Arte que detalhadamente segue uma cartilha: de gênero, estilo e categoria.

Na dúvida, produza arte identificável.

Encontre seu nicho, estude os modismos, saiba bem o imaginário artístico do contexto onde se insere. Lembre-se que arte boa de um lugar é arte ruim de outro e vice-versa.

Encontre e faça, com o melhor dos empregos de suas habilidades e recursos, a arte boa do seu contexto. E não olhe para outros contextos, ignore-os.

Se seu contexto exige arte subversiva, seja subversivo. Se seu contexto exige arte decorativa, seja decorativo. Se seu contexto exige arte tradicional, seja tradicionalista. Se seu contexto exige arte desconstrutiva das linguagens consolidadas, encarne a própria desconstrução.

Tampouco procure a arte boa para além da arte boa. Arte boa tem o limite da clara aferição da qualidade do meio que a legitima.

Não tente a arte geniosa, não queira que a arte boa seja mais do que ela é.

Faça uso dos critérios técnicos estabelecidos. Eles estão lá por alguma razão. Faça música tonal, afinada entre 440 e 444hz; faça pintura mimética, proporcional, poesia metrificada, sonetos decassílabos heroicos.

Atenda, com convicção, às convenções e regras. Faça arte que apreenda o objeto temático no melhor uso do vocabulário técnico que alça qualquer assunto ao patamar da qualidade.

Na dúvida, ande na linha. Não deixe margem às dúvidas. Encontre a razão de ser técnica e estrutural para cada detalhe do artifício.

E empenhe-se!

Arte boa não aceita deslize. Arte boa não aceita desculpa. Arte boa não aceita discussão. Arte boa exige estudo, esforço e práticas continuadas. Mas arte boa é arte nos limites da arte.

Faça arte do artifício, da representação, da galeria, da apresentação. Em última instância, faça arte da ordem. A única desordem aceitável para a arte boa é quando a desordem é uma ordem. Do contrário, faça arte ordenada. Não ponha em pauta questões éticas muito profundas com relação ao fazer artístico. Elas põe em risco a arte.

Faça arte profunda o suficiente para poder mergulhar, mas não o suficiente para permitir se afogar: arte boa exige a distância correta (de produção, contemplação, abordagem temática…).

Arte boa exige cálculo e equilíbrio.

Faça arte boa e viva bem, com a tranquilidade de quem sabe que será esquecido apenas no futuro, quando alguém que, hoje, está fazendo arte ruim e vivendo mal, terá seu triste reconhecimento póstumo.


Faça arte ruim

Na dúvida, faça arte ruim. Arte boa é só aquela que atende a uma série de expectativas consolidadas acerca do objeto arte.

Não é difícil fazer arte boa. Gente que faz arte boa de agora muitas vezes só está fazendo arte ruim do passado agora que ela pode.

Basta pensar um pouco.
Basta ter respaldo de um contexto histórico.
Basta saber onde sua arte se insere na história da arte, com quem ela dialoga
.

Arte boa é só a arte dos precedentes. Arte boa é só aquela dos catálogos. É a arte da filiação, da carteirinha, do atestado de artista.

Na dúvida, faça arte ruim. E duvide se ela realmente é ruim o suficiente ou só uma estratégia de contexto diferente.

Não faça arte ruim em relação a um contexto artístico, faça arte ruim em relação a todos os contextos.

Faça arte com dignidade. Não arte ruinzinha. Não faça arte que queria ser boa e só foi mal executada. Não faça arte dos medrosos que gostariam de fazer bem a técnica, mas não o fazem. Nem a arte dos relapsos, dos preguiçosos, dos desistentes.

Os desistentes não fazem arte ruim, eles são ruins. E justificam-se na medida do quão insossa é sua arte. Não faça arte ruim para justificar sua falta de iniciativa, inventividade, destreza ou investimento criativo.

Não faça arte ruim dos incompetentes. Faça competentemente arte ruim!

Planeje, estude, reflita, descubra a arte ruim em cada detalhe. Coloque em dúvida deliberadas questões das artes consideradas boas para chegar na sua arte ruim. Faça arte ruim compromissada, autêntica. Faça arte ruim nos menores detalhes, conscientemente, com verdadeira vontade.

E depois deixe para lá e vá para o próximo projeto.

Afinal, não é porque você fez uma arte ruim muito boa que você tem que se vangloriar a respeito.


Desafio

Transite entre os polos anteriores, some-os, divida-os, multiplique-os. E, principalmente, produza arte!


Lucas Carvalho é artista, professor universitário, criador e roteirista do Cozinha Gráfica

Publicado por Cozinha Gráfica

Pesquisa e produção artística ampliada na web.

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