Por: Prof. Me. Lucas Carvalho (Orientador) Guilherme Correia Silva (Bolsista de Iniciação Científica pela FAPEMIG) Phelipe Mateus Soares Batista (Orientando de Iniciação Científica Voluntária)
Vai chegando o meio do ano, o inverno se aproximando, e o espírito coletivo parece todo se voltar a um único pensamento: as festas que se aproximam.
As festas juninas mexem com a memória e imaginação de todos os brasileiros. Tanto que um mês só não chega a ser suficiente e, com uma simples adaptação, fazemo-las estender por julho, tornando-as também julinas. Quiçá agosto, se ainda houver fôlego.
Mas sejam juninas ou julinas, ninguém é imune ao arsenal do festejo. Fogueira, quentão, forró, quadrilha, brincadeiras e bandeirolas, o “Arraiá“, como alguns a chamam, faz o frio parecer convidativo e charmoso. E aquece o coração o suficiente para tirar todos de casa para irem comer uma canjiquinha.
As Festas Juninas no Brasil
Como a maioria das festas populares do Brasil, a Festa Junina chegou por influência estrangeira durante o processo de colonização. No seu início aqui no país, tratava-se de uma celebração de cunho estritamente religioso, que homenageava os santos São João e Santo Antônio.
Festa Junina promovida pela Paróquia do Pilar em Ouro Preto – MG (2023).
Ainda hoje, é comum que se diga festa de São João, ou mesmo se reduza a apenas “São João”. Afinal, quem nunca disse “eu vou no São João”, tornando o próprio santo sinônimo da festividade? E muitas festas juninas são promovidas pelas próprias paróquias das cidades.
Mas, interessantemente, antes de sua assimilação pelo cristianismo, assim como o Natal, a origem da festa na Europa é pagã, celebrando o solstício de verão. Ou seja, a passagem do inverno para o verão, com visas a espantar espíritos ruins que poderiam afetar as colheitas que ocorreriam no mês, tornando-se parte do calendário festivo do catolicismo apenas muito posteriormente.
Contudo, diferentemente do nosso Natal, que preserva diversos signos do inverno como parte da sua tradição, ainda que ocorra em pleno verão, a Festa Junina brasileira é tipicamente uma festa do inverno. Nada mais irônico do que tornar uma festa símbolo da chegada do verão na festa mais icônica do nosso inverno.
Mas, introduzida pelos colonizadores, as festas juninas caíram nas graças da população em geral que, com o passar do tempo, moldaram-nas na sua brasilidade, conferindo-lhes características específicas como a utilização de músicas feitas a partir de “instrumentos como cavaquinho, reco-reco, sanfona e triângulos” (ALL MAGAZINE, 2019).
Também se popularizaram as danças folclóricas, com roupas regionais, como a famosa Quadrilha, dança típica originada na Inglaterra no século XIII, que foi incorporada à cultura francesa, “desenvolvendo-se em danças de salão a partir do século XVIII” (FERNANDES, s.d.).
Desembarcou no Brasil por intermédio da nobreza da Corte no Rio de Janeiro, mas conquistou o povo, adquirindo novas formas e significados, com particular popularidade nos meios rurais.
Assim, aos poucos, as festas foram adquirindo sua forma geral e especificidades segundo suas regiões, com assimilações e colaborações multiculturais, que vão das formas visuais, músicas, tradições folclóricas e, é claro, as comidas típicas, com muitas variedades feitas a partir do milho e amendoim, como por exemplo, pamonha, canjica e pé de moleque – que só de falar, dão água na boca!
A Festa Junina de Campina Grande, na Paraíba, é considerada “O maior São João do Mundo“, com 31 dias de festa que atraem mais de 2 milhões de turistas. Foto: Reprodução – Codecom/Ledyson Jackson.
A seguir, cinco artista que trabalharam o tema das Festas Juninas e algumas de suas obras para conhecer.
A síntese iconográfica da festa nas Bandeiras de Volpi
A série de “Bandeirinhas” de Alfredo Volpi (1896 – 1988) tornou-se sua marca registrada. Espécie de identidade pictórica que confunde arte e artista: as bandeirinhas de Volpi são sua criação tanto quanto Volpi se tornou, tal como o São João, sinônimo das bandeirinhas, ainda que ele próprio contestasse: “um pintor de bandeirinhas eu? Quem pinta bandeirinhas é o Penacchi. Eu pinto formas, cores.” (VOLPI, A. apud ABRA – ACADEMIA BRASILEIRA DE ARTE, s.d).
“Bandeirinhas estruturadas com mastros” (1950-59) – Alfredo Volpi
“Bandeiras e mastros” (déc. 1960) – Alfredo Volpi
“Bandeiras e mastros” (déc. 1970) – Alfredo Volpi
“Mastros e bandeiras” (1980) – Alfredo Volpi
De fato, a série, explorada pelo artista autodidata entre os anos de 1950 e 1980, representa um tensionamento incomum entre figuração e abstração: no limiar da desconstrução em cores e formas, própria do procedimento abstrato, menos do que abandonar a realidade, o que parece é sintetizá-la, tornando-a emblema. Na abstração, Volpi sintetiza a festa junina, de forma mais icônica que nunca.
Essa contradição é fruto de duas influências distintas.
“Bandeiras” (1958) – Alfredo Volpi
Na década de 1940, o artista ganhou um concurso promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, que o fez se encantar e voltar os olhos para arte colonial e temas populares e religiosos. E, na década de 1950, um processo de desconstrução que já se encaminhava na sua produção recebeu maior estímulo à abstração com o surgimento do pensamento e grupos concretistas no panorama artístico brasileiro.
Assim, o artista trabalha com o baixo contraste na forma de bandeirinhas típicas do folclore brasileiro, expressando um desequilíbrio intencional, formas não polidas e a dissolução entre forma e fundo, criando um jogo entre questões de forma e composição, próprias da pintura, e um símbolo imediatamente reconhecível pelo imaginário coletivo do Brasil.
Entre o apelo a temas populares típico do Modernismo brasileiro, e a desconstrução da pintura que marcou o início da arte contemporânea brasileira na década de 1960, as bandeirinhas de Volpi se equilibram, ou melhor, flamulam nas contradições. Não por menos, o artista, cuja origem é italiana, acabou fazendo uma das mais expressivas e reconhecíveis alusões a uma festa tão típica daqui.
O fantástico do real nas festas de São João de Guignard
O tema do São João aparece inúmeras vezes na obra do pintor Alberto da Veiga Guignard (1896 – 1962). Seja durante à tarde, seja durante à noite, o São João surge não como uma festa particularmente retratada, mas como propriamente uma atmosfera que toma conta da cidade, oscilando entre o retrato fiel e a fábula.
Se as festas juninas parecem naturalmente dotar qualquer lugar de um aspecto onírico e lúdico, que suspende o cotidiano e faz valer um outro espírito, esse clima fantástico captado por Guignard se manifesta ainda mais forte na cidade pela qual o artista se encantou e escolheu viver: Ouro Preto.
“Noite de São João” (1961) – Alberto da Veiga Guignard
Entre igrejas que competem pelos morros, as pinturas de Guignard “transformam o que seria paroquial num assombro. Por exemplo, quando insinuam a flutuação de balões e igrejas barrocas, acima da lua e no meio das trevas, pela vastidão de um território a um só tempo nebulosoe submerso” (RIBEIRO, J. A. P, 2009, p. 10)
“Tarde de São João” (1959) – Alberto da Veiga Guignard
“Noite de São João” (1961) – Alberto da Veiga Guignard (detalhe do foco de incêndio no canto superior esquerdo).
“Noite de São João” (1961) – Alberto da Veiga Guignard
Não se trata apenas de uma festa, mas da pluralidade de festejos dispersos que concorrem por entre as frestas da névoa. A cidade é vista à distância e as pessoas, pequeninas, festejam, às vezes com cores vibrantes nas roupas, outras vezes estando inteiramente de branco, de modo que é possível conceber uma visão holística de toda comemoração, cujos elementos mais emblemáticos são os balões que flutuam, ocasionalmente gerando até focos de incêndio.
Essa fusão de festejos dispersos produz uma atmosfera única, de mistério e júbilo, de algo suspenso num imaginário mítico em que cidade histórica real e cidade histórica imaginada se confundem – algo que inspirou o crítico de arte Lourival Gomes Machado a criar a expressão “lirismo nacionalista” para designar a obra do artista.
Cartaz de palestra do teórico da arte e poeta Ferreira Gullar como parte de programação da “Semana Guignard” de 1983.
Mas a relação de Guignard com a festa Junina não termina aí. Na Escola Guignard, implementada pelo então prefeito de Belo Horizonte Juscelino Kubitschek, em 1944, que convidou o artista para dirigi-la, a “Semana Guignard” tornou-se evento emblemático alguns após a morte do artista.
Ela conta com uma série de eventos e oficinas no meio do ano que culminam com a “Festa Junina do Guignard“, ainda hoje tradicional e cujos adereços muitas vezes são feitos por estudantes, artistas e professores da instituição.
O São João da “Pequena África” por Heitor dos Prazeres
“Pequena África” foi o nome dado por Heitor dos Prazeres (1898 – 1966), pintor e músico negro, para uma área “abrangida pelos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, na zona portuária do Rio de Janeiro” (RIOTUR, s.d).
É lá que estão o morro e Favela da Providência, a mais antiga do Rio de Janeiro, lá foi um dos berços do Samba, e é de lá que o artista retirava lembranças e referências para suas obras.
Retrato de Heitor dos Prazeres.
A expressão “Pequena África” relacionada àquele recorte espacial produz uma cadeia de significados que sintetizam o Brasil pós-abolicionista: a alta concentração de uma população negra largada à revelia, com baixos recursos, buscando promover suas formas de resistência e reconexão com seu passado no continente-mãe.
Nesse âmbito, os festejos guardam lugar privilegiado, de produção coletiva, celebração e reconexão com a vida: “a Pequena África transforma-se num palco onde as práticas das manifestações negras aconteciam. Capoeira, Samba, Festas de Santos e Orixás, por meio dos valores, costumes, arte, modos de vida é que o inconsciente coletivo africano encontrava nesse território um lugar de autoafirmação” (TONETO, L. C, 2019, p. 75).
“Noite de São João” (1961) – Heitor dos Prazeres
O São João de Heitor do Prazeres mostra essa “cultura de resistência negra pós-abolicionista” (TONETO, L. C, 2019, p. 68). A metáfora do palco é propícia: com casas como cenário ao fundo, a obra coloca os personagens num centro de protagonismo, numa representação, ao mesmo tempo, intimista e igualitária, uma marca do artista; de singularizá-los na sua coletividade.
Ali, todos os elementos das Festas Juninas são facilmente identificáveis: danças, instrumentos, bandeirolas, fogueiras, num círculo vibrante, arrematado pela brincadeira do “pau de sebo” ao centro.
A obra também guarda um significado específico para a carreira do artista. Em 1943, foi exposta em Londres, num evento beneficente às vítimas da Segunda Guerra, onde foi arrematada pela própria Rainha Elizabeth. O que abriu as portas do mercado brasileiro para Heitor, explicitando, todavia, uma triste tradição colonialista ainda muito comum na cultura do país: de apenas valorizar seus talentos quando estes são reconhecidos no exterior.
O verdadeiro arraiá da roça de José Antônio da Silva
Para sobreviver, José Antônio da Silva (1909 – 1996) fez um pouco de tudo. Foi leiteiro, carroceiro, pedreiro, porteiro de hotel e até coveiro. Mas sua verdadeira vocação era a arte. Nascido na zona rural da cidade de Sales Oliveira, desde criança desenhava em tudo que tinha em mãos, ao ponto de o considerarem louco ou com pactos demoníacos:
“Quando eu era criança, que me entendia por gente, eu já desenhava nas folhas de café e riscava na areia. (…) Todo mundo dizia que eu tava ficando louco. (…) Os colonos ficaram com medo de mim. Diziam que eu tinha parte com o diabo”
DA SILVA APUD TONETO, L. C, 2019, P. 103
Foi um concurso da Casa de Cultura de São José do Rio Preto, para onde havia ido morar com sua esposa, que mudou definitivamente sua carreira. A comissão julgadora, composta pelos críticos Lorival Gomes Machado e Paulo Mendes de Almeida, assim como o professor da USP João Cruz Rosa, concedeu a José o primeiro lugar.
Uma pequena revolta de políticos e artistas locais até fez com que os julgadores tivessem que reconsiderar o resultado, rebaixando-o para a quarta posição, mas o destino já estava selado. O crítico Lorival arranjou-lhe uma exposição individual em São Paulo, que abriu as portas do artista para um merecido reconhecimento.
“Festa de São João” (1974) – José Antônio da Silva
O tema da Festa de São João é recorrente na produção do artista, aparecendo em várias de suas obras. Resgata suas memórias de infância, quando ajudava os pais nas lidas da roça. De todas as obras aqui mostradas, é a que traz uma autêntica festividade do campo, como denotam as casas com paredes terrosas de pau-a-pique e as cercas de madeira, diante das quais há inúmeros animais amarrados, indicando que pessoas vieram de outras fazendas para a celebração.
“São João” (1970) – José Antônio da Silva. Nessa outra representação do São João do artista, a fogueira continua como o elemento central, mas os personagens são ainda mais diluídos em pinceladas que os tornam apenas borrões de tinta. Produz uma alusão – voluntária ou não – aos próprios padrões coloridos das vestes usadas nas Festas Juninas.
Se Heitor dos Prazeres traz, como elemento central, o pau de sebo, na obra de José o destaque é dado à fogueira, que supera, em muito o tamanho dos personagens e ao redor da qual eles se aglomeram. Ao contrário do primeiro, é justamente a movuca que é a tônica.
Ao inverso da singularização que imprime Heitor, mesmo numa festa coletiva, José confere à festa seu caráter de aglomeração. A distância serve para reforçar essa concentração tão localizada. Não há vivalma para além do centro de interesse.
Produz um sentimento de nostalgia mesmo para quem nunca teve contato com o campo, apelando para uma simplicidade cujo conteúdo se casa perfeitamente com o estilo: as pinceladas borradas e traços simples criam uma ponte sensível com o imaginário do espectador, induzindo, mesmo que sem tomar parte, à comunhão festiva que a tela representa e ao anseio por tempos/momentos mais simples e bucólicos.
O convidativo caos junino da Djanira da Motta
Djanira da Motta e Silva (1914 – 1979) tem uma trajetória singular na arte brasileira. Filha de um pai indígena com uma mãe imigrante austríaca, quando ambos se separaram, Djanira passou a morar com o pai até os 16 anos, em Santa Catarina. Entretanto, em dado dia, seu pai saiu para trabalhar e nunca mais foi encontrado.
A menina, então, passou a morar com agregados, executando funções domésticas, até ser resgatada pela avó materna, indo morar na roça. Anos mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde dirigiu uma pensão, junto com o marido, muito frequentada por intelectuais e artistas.
Retrato de Djanira da Motta e Silva.
Ali, embora autodidata, conviveu com nomes como Mario Pedrosa, Vinicius de Moraes e Lasar Segall, tendo inclusive recebido dicas de pinturas do artista Emeric Marcier: “em troca das refeições na pensão, Emeric lhe ensina as técnicas de temperar as tintas, ao que Djanira apelidou de ‘cozinha da pintura‘” (TONETO, L. C, 2019, p. 91).
Após a morte do marido, a carreira da artista ganhou notoriedade, ao ponto de ela chegar a morar no Estados Unidos. Sua “Noite de São João”, inclusive, é do mesmo ano em que artista realiza uma exposição individual em Nova Iorque, 1946.
A obra tem a caraterística peculiar de nos incluir na dimensão da festa.
“Noite de São João” (1946) – Djanira da Motta
Enquanto as bandeiras de e Volpi se caracterizam pela síntese iconográfica, e as obras de Guignard, Heitor dos Prazeres e José Antônio pelo distanciamento (seja a partir de uma visão quase mística da cidade em polvorosa, seja de uma visão cênica do palco da festa ou da movuca concentrada do arraial do campo), a festa de Djanira traz consigo – e para o espectador – o caos da proximidade.
Essa relação é amplificada pelo ângulo de visão quase no mesmo patamar das figuras, pela ausência de linhas de estabilidade (todas diagonais), pelas diferenças de escala dos personagens e por sua própria representação; alguns têm rostos delineados e outros não. Quem não se identifica com essa situação típica de festa, em que alguns rostos são discernidos e até permanecem na memória e outros se tornam meros borrões?
Detalhe do mastro com estandarte de São João, com a cruz e o carneiros – atributos com os quais usualmente é representado.
Outra singularidade, que é típica da artista, é representação clara e objetiva de elementos do catolicismo. No caso, o estandarte de São João. Mais do que apenas elemento iconográfico, trata-se de uma convicção de fé, tendo em vista que, ao final da vida, Djanira converteu-se freira, sendo enterrada como tal.
Contando já mais de oitenta anos, o caos festivo de Djanira preserva notável frescor e demonstra como a essência de algumas tradições se mantêm no país, mesmo com tantas mudanças, principalmente tecnológicas.
Pouco se diferencia de qualquer festa de bairro. Diferentemente do tempo suspenso e distanciado dos quadros anteriores, sua mobilidade parece nos convidar para, trajados a rigor, prontamente adentrar o quadro, participar da quermesse e ir comprar alguma coisa nas barraquinhas.
E que esse quadro assim permaneça indefinidamente, trazendo-nos, ano após ano, mais festas em junho e julho, para alegrar a vida e espantar o frio, com comes e bebes quentinhos e muita dança.
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS. História da Escola Guignard. Belo Horizonte: UEMG, 2023. Disponível em: https://uemg.br/institucional-guignard/historia. Acesso em 18 de jul. de 2023.