Por Lucas Carvalho Rôla
Pequeno conto de Natal
Capítulos:
Capítulo 1 – Papai Noel existe
Capítulo 2 – Quantos Papais Noeis existem?
Capítulo 3 – E se o Papai Noel não existisse?
Capítulo 4 – Papai Noel não existe

Capítulo 1 – Papai Noel existe
O Papai Noel acostou-se na sua poltrona. Trajava apenas uma camiseta branca com os suspensórios e a calça vermelha. Seu casaco e cinto estavam dependurados num canto da sala. O ambiente era aconchegante, mas ele se sentia desanimado. De sua mão, escorria um enorme pergaminho, assinalando boas e más crianças.
Passou os olhos cansados pela lista.
– Bom menino, má menina, boa menina, bom menino, mau menino…
Piscou os olhos algumas vezes tentando acompanhar as palavras, mas elas começaram a se embaralhar no papel. Deu uma leve bufada.
Já devia ter automatizado o processo há alguns anos, mas o atraso era apenas sintoma de algo maior. Papai Noel, na verdade, estava com dúvidas acerca dessa história de bons e maus comportamentos.
Recentemente, adquirira uma improvável simpatia pelas crianças rebeldes que, para ele, tinham pelo menos o benefício da honestidade. Quantos supostos bons meninos não eram apenas condicionados pelas ameaças dos pais, ou pela expectativa de ganharem presente? E o que havia de verdadeiramente bom num comportamento determinado não pela boa ação, mas pelo interesse no prêmio ou pelo medo de não recebê-lo?
Ele, que deveria ser a encarnação do espírito de Natal, sentia-se incomodado.
Todo esse esquema de mensuração do comportamento correto parecia fazer do Natal uma grande farsa. Onde estavam as ações generosas, desprovidas de segundas intenções que deveriam ser a tônica da data? Mas isso era só a ponta da árvore de Natal. Esse incômodo era apenas um dos muitos que há algum tempo estava experimentando, e que estavam lhe trazendo uma angústia ainda mais profunda; um sentimento de inadequação misturado com uma pulga atrás da orelha que havia engendrado nele uma ideia que beirava a teoria da conspiração: a suspeita de que ele próprio, o Papai Noel, talvez não existisse.
Colocou o pergaminho sobre a mesa e ficou considerando, por um tempo, essa hipótese complemente aterradora. Para todos os fins, sentia que estava ali, como uma consciência e corpo. Mas talvez houvesse deixado algo escapar. Fora, por alguma razão, levado a crer que era o Papai Noel, mas quiçá não fosse nada disso. Quem sabe não era só o resultado de uma construção fictícia, como tantos títulos que existem por aí que as pessoas acreditam tanto que fazem até existir, como presidentes, chefes, generais… Essas coisas.
Ainda assim, soava irônico, algo próximo do absurdo. Olhou para suas vestes espessas e avermelhadas e, de repente, num súbito impulso, puxou a própria barba, como uma criança travessa tentando revelar um impostor que, no entanto, era ele próprio.
– Hohoho – riu-se da própria travessura, embora não pudesse deixar de sentir uma pitada de dor. Se ainda fosse uma criança, com certeza seria uma das que não ganhariam presente…
A ação impulsiva, contudo, produziu o efeito de melhorar o seu humor. E, então, uma ideia lhe ocorreu. Ou melhor, duas ideias.
Primeiro, rasgou em pedacinhos o pergaminho das boas e más crianças. O que quer que fosse o Natal, não poderia ser reduzido a isso. Em seguida, puxou um sino de uma coleção que havia na beirada da mesa, balançou-o e, prontamente, um elfo apareceu.
– Senhor?
– Prepare o Rudolph, por favor, vou fazer uma breve viagem.
– Não vai precisar do trenó e das outras renas?
– Não. O Rudolph só já basta.
Depois que o elfo se retirou, Papai Noel levantou-se da cadeira e começou a se arrumar. Brincou com o nome “Rudolph” na mente durante um tempo. Que nome idiota. Não bastasse isso, ainda pertencia à única Rena que tinha nariz vermelho. Papai Noel riu-se mais uma vez do quão besta tudo aquilo parecia. Não apenas besta, mas insólito.
Talvez ele realmente não existisse. E isso nem fosse tão ruim assim.
Capítulo 2 – Quantos Papai Noeis existem?
O homem atrás da mesa ficou olhando por um tempo para o Papai Noel. Era um homem calvo, com olhos apertados, e uma aparência ansiosa que se explicava pela quantidade de problemas com que estava tendo que lidar naquela véspera de Natal.
– Sem dúvida você tem o perfil correto para o papel – disse ele – mas você sabe que tem um sindicato, né?
– Perdão?
– Sindicato dos Papais Noeis. Você pertence ao sindicato dos Papais Noeis? Eles atendem aos shoppings, pra gente saber com quem está lidando.
– Não sabia que tinha sindicato.
– Pois é. Como eu vou checar seus antecedentes? Você deve imaginar o quanto de maluco um emprego como esse atrai.
– Eu não sou maluco – disse rapidamente o Papai Noel, pensando, todavia, que havia acabado de chegar ali montado numa rena voadora de nariz vermelho chamada Rudolph, para tentar um bico de Papai Noel de shopping quando ele próprio duvidava de que poderia ser real.
– Maluco nenhum diz que é. Mas, se você saiu de casa, com essa roupa, para tentar o trabalho sem ser representado por nenhuma agência e sem ser filiado ao sindicato, isso já acende uma luz vermelha…
O homem ficou parado durante um tempo, com o olhar perdido, tentando organizar as demandas de sua cabeça, depois continuou:
– O problema é que hoje meu Papai Noel faltou. Ficaram de me enviar outro e até agora não chegou. A gente fala bem do sindicato e é isso também… – concluiu, aparentemente sem conseguir organizar a ordem de prioridade das demandas contraditórias de ter que arrumar um Papai Noel para o shopping e não contratar um maluco qualquer que apareça vestido de Papai Noel.
– Eu poderia fazer um teste por hoje apenas – respondeu o Papai Noel, pensando que usar da sua magia natalícia para impedir que os outros Papais Noeis viessem ao trabalho era exatamente o tipo de coisa que garantia uma posição cativa na lista dos maus meninos.
– Tudo bem, tudo bem. Vai lá. Quem sabe você não é um maluco, e sim um milagre de Natal para salvar meus negócios – disse o homem, tentando se convencer.
– Bom, para alguns eu sou realmente o único Papai Noel. Hohoho. E feliz Natal! – Disse o Papai Noel, levantando-se e indo em direção à porta da sala, com visível alegria. Antes de sair, entretanto, virou-se para o homem e perguntou:
– Você ainda tem o ferrorama que eu lhe dei quando tinha sete anos?
O homem ficou estarrecido. Como aquele senhor sabia dessa informação que, ainda por cima, consistia na sua memória afetiva mais querida com relação ao período do Natal.
– O que? N… Não. Quer dizer… Eu sempre o guardei. Mas, recentemente, decidi passá-lo para meu sobrinho. Está em ótimas condições e ele também gostou muito, e cuida bem…
– Bom. Eu tenho tido dúvidas sobre muitas coisas. Mas talvez você realmente tenha feito por merecê-lo – disse o Papai Noel, esquecendo-se do seu recém-adquirido ceticismo e revivendo brevemente a gostosa sensação, livre de dúvidas, de tempos áureos e mais simples, quando entregar presentes e atender aos desejos da criançada preenchia-o com uma satisfação imensurável.
– C… como você sabe do ferrorama? – Perguntou o homem, ainda aturdido.
– Ora, não é só o sindicato dos Papai Noeis que guarda antecedentes – respondeu o Papai Noel, com um sorriso bondoso, virando-se de costas e saindo lentamente, deixando o homem para trás, um pouco embasbacado, mas felizmente perdido em memórias da infância.
Capítulo 3 – E se o Papai Noel não existisse?
Clique.
Mais um flash estourou na cara do Papai Noel. O sorriso, que há 20 fotos atrás começara como verdadeiro, agora já estava se tornando uma pálida imitação. Papai Noel não estava há muito tempo no posto de Papai Noel de shopping, mas a tarefa já estava começando a desgastá-lo.
– A foto vai ficar disponível neste link. Se você quiser, a gente te envia no WhatsApp. Vai querer a cópia impressa também? – Perguntou a moça vestida de mamãe Noel para uma mãe repleta de sacolas nos braços.
Enquanto as mulheres continuavam a acertar aquela estranha negociação acerca de uma recordação meticulosa e artificialmente criada, Papai Noel virou-se para a fila. O shopping estava frenético. Pessoas andavam de cima a baixo, discutindo presentes no celular, arrastando crianças e entrando nas lojas.
Havia sido instruído a não gastar mais de cinco minutos com uma criança no horário de pico e, quando possível, a insinuar ou direcionar a conversa sutilmente para produtos que havia no shopping. Se a criança dissesse um desejo muito abstrato, por exemplo, poderia responder algo como: “mas você não prefere um videogame?”.
Durante seu breve período de trabalho, havia conhecido crianças como jamais conhecera. Era uma das mais absolutas ironias o fato de que o Papai Noel, que supostamente gosta tanto de crianças, apenas visitava suas casas quando elas já estavam dormindo. No máximo, esbarrava eventualmente com alguma no corredor, tentando furtivamente vê-lo. Mas esses momentos eram sempre permeados de respeitoso temor, sob o risco da perda dos presentes.
Agora estava conhecendo uma outra profissão de Noel; o Noel a serviço dos clientes.
Não que não houvesse as crianças interessadas, até fascinadas com aquela entidade mágica, encarando-o com olhos brilhosos. Mas, para cada uma dessas, havia também inúmeras que pareciam estranhamente alheias ao Natal, reduzido a uma data para ganhar determinado produto cobiçado que, paradoxalmente, tão certo já era de ser adquirido que se tornava indiferente.
Isso sem contar os pestinhas que puxavam sua barba, fazendo-o começar a reconsiderar seriamente a simpatia que vinha desenvolvendo pelos maus meninos.
Todavia, tratando-se de maus comportamentos, eram os adultos que realmente o preocupavam. Afinal, o que eram as crianças senão reflexos desses? Brigavam com atendentes, exigiam tratamentos privilegiados, competiam entre si. Apressados para o Natal, transmutavam o período numa lista de obrigações, que cumpriam de forma aborrecida. Parecia que os mesmos adultos, que um dia haviam experimentado da magia do Natal, depois de crescidos, sentiam que essa magia havia se voltado contra eles, tornando-se um fardo que agora lhes custava promover.
Tratava-se de um peso que não correspondia à data e que, contraditoriamente, parecia demovê-la de sua essência. O Natal havia se convertido numa lista de demandas, exercidas de modo mecânico e às vezes agressivo, um checklist de tarefas em que a foto com o Papai Noel também poderia figurar, não como um momento de Natal, mas como uma das exigências que demarcam uma vivência artificial do período, menos produzindo-o e mais justificando-o.
O Papai Noel real, naquela função de Papai Noel para foto, sentiu-se cada vez mais irreal. Tornara-se não mais do que uma imagem, uma aparência de Natal, uma caricatura. Respostada em redes sociais e compartilhada de forma exaustiva, a fotografia representava uma tentativa de afirmar uma vivência natalina que escapava. Mas era uma encenação do Natal. Por detrás de cada foto, havia pais apressados, famílias emburradas ou absortas nos celulares, e consumo, muito consumo.
Papai Noel percebeu que, de fato, não estava enganado: o Papai Noel não existia, o que existia era tão e somente a imagem do Papai Noel, parte de um conjunto de símbolos que as pessoas usavam para produzir uma outra imagem: a imagem sem imaginação, e sem alma, do Natal.
Capítulo 4 – Papai Noel não existe
O dia se estendeu longamente. Papai Noel ouviu pedidos que já não tinha qualquer vontade de atender. De modo geral, inclusive, eram pedidos produzidos e atendidos por instâncias que iam muito além dele. Sobrepujavam sua pequena fábrica de brinquedos. Sentia que fazia parte – e talvez ajudara a construir – de uma engrenagem que agora já funcionava de maneira autônoma, e da qual já não tinha qualquer controle, resignando-se a uma função meramente simbólica.
Sua imagem e suas coisas estavam em todo lugar. Eram usadas a despeito de suas intenções, sempre com uma alusão fictícia a princípios do Natal cada vez menos observados. Papai Noel percebeu que era como alguém que um dia fora importante para uma organização, mas que agora havia sido conduzido a um cargo honorário.
No fundo, havia acertado na sua modesta pesquisa de campo: entre ele e um Papai Noel de shopping, não havia nenhuma diferença, à exceção de que o último, pelo menos, era sindicalizado.
Após a jornada, saiu andando entristecido pela rua, absorto em seus pensamentos, até que chegou a uma grande praça iluminada. A noite quente dos verões do hemisfério sul e o período de férias haviam aumentado a frequência do local, que se encontrava apinhado de gente. Ali, mesmo com sua exuberante roupa, passava um tanto quanto despercebido. Havia vendedores de balões e pipoca, carrinhos de cachorro quente, barraquinhas…
Era uma noite bonita, embora ele não se sentisse capaz de apreciá-la. Trazia consigo uma sensação estranha, que reforçava seu sentimento de inexistência, de um mundo que continuava a despeito dele próprio e do que deveria representar – ainda que, ironicamente, a própria praça exibisse diverso símbolos natalinos iluminados de maneira extravagante.
Sentou-se pesadamente num banco e ficou observado a movimentação. Crianças correndo, casais de mãos dadas, todos passavam por ele, sem que o notassem. Até que, de repente, uma criança se sentou, com um pacote de biscoitos do seu lado.
– Quer um biscoito, tio? – O menino estendeu o pacote em direção a ele.
Infinitas memórias se acenderam imediatamente na mente do Papai Noel. Milhares de biscoitos e copos de leite deixados meticulosamente em lareiras, perto das árvores, para agradar-lhe e garantir o recebimento de desejados presentes. Contrastavam com aquela situação, tão espontânea, de um garoto simplesmente oferecendo-lhe um biscoito, sem esperar por nada em troca.
Papai Noel olhou-o no fundo dos olhos.
– Você sabe quem eu sou?
– Não tio. Quem você é? – Respondeu o menino, de maneira inocente.
– Ninguém não – disse o Papai Noel, retirando um dos biscoitos – obrigado!
– Vem, Maurício. Deixa o moço descansar – ouviu-se uma voz feminina dizer a certa distância.
O menino pulou do banco e saiu andando tranquilamente.
– Tchau, tio.
Papai Noel observou-o indo embora, enquanto mordia o biscoito. Sentiu-se preenchido com uma energia natalina como há muito tempo não sentia.
Finalmente encontrara a medida certa do ímpeto de subversão dos maus meninos que ultimamente estava tomando seus pensamentos: era ele próprio quem precisava transgredir, transgredir seu próprio comportamento esperado, sua própria fantasia consolidada e recuperar a magia de sua essência.
Enfim compreendeu de onde vinha sua sensação de inexistência. Não era necessariamente apenas um efeito das circunstâncias, mas também uma convocação. Não que o Papai Noel não existisse. Na verdade, ele existia. Existia até demais. E essa existência excessiva, compulsiva, encobria o Natal. Era necessário que o Papai Noel deixasse de existir naquela forma para dar lugar à experiência natalina. Deixar de ser matéria, imagem, símbolo, produto, e se tornar espírito, ação, momento, sensação e experiência.
Diante dessa inusitada constatação, o bom velhinho caiu numa risada gostosa.
– Hohohoho…
A risada foi crescendo e seu corpo começou a se desfazer num pó luminoso. Quanto mais ele ria, mais seu corpo se dissolvia. Até que, de repente, só restou a risada que foi ecoando, ecoando… da praça para o restante do mundo.
Aos poucos, essa risada luminosa chegou a cada canto do planeta: casas grandes, casebres, barracos, choupanas, tendas… no campo e nas cidades, espalhou-se por todos os lugares.
A risada impregnou cada boa ação, cada gesto genuíno e espontâneo de carinho, respeito e generosidade, cada coração que decidiu fazer um pouco mais para ajudar o outro, compartilhar o momento, trazer alegria e amor para vida, e produzir o verdadeiro espírito de Natal – que não apenas faz o dia 25 de dezembro, mas todos os dias do ano valerem a pena. E que, na magia do ato despojado de interesse, transforma cada um de nós em um legítimo Noel.
Hohohoho….
FELIZ NATAL!

Lucas Carvalho é artista, professor universitário, criador e roteirista do Cozinha Gráfica
