Por Isabella dos Santos Ramos
Índice:
- O ateliê de Jorge Braga: do hobby à prática consolidada
- A influência da mãe Lerinha e do Vale do Jequitinhonha
- Coleta de histórias: o processo escultórico que se produz pelos materiais
- Forma, tema e estilo: de São Francisco de Assis a Don Quixote de La Mancha
- Jorge Braga: arte que se faz no fluxo do processo

O ateliê de Jorge Braga: do hobby à prática consolidada
Localizado no centro da cidade, o ateliê de Jorge Braga guarda uma pluralidade de elementos que nos transportam a outro tempo e espaço, seja por sua vasta coleção de objetos antigos – telefones, máquinas fotográficas e outras peças – seja pela originalidade de suas esculturas.
No mesmo local, o artista trabalhou em uma loja de eletrodomésticos por 37 anos, “o sustento da família”, como ele mesmo afirma. O espaço foi transformado em ateliê há cerca de 4 anos e fica aberto todos os dias, sem horário fixo, na rua Sebastião Diniz, 130, em Montes Claros – MG.
Antes da inauguração, ele via sua produção apenas como um hobby, realizando peças ocasionalmente, inclusive para outros artistas, como Márcia Prates, Carlos Araújo e Sérgio Ferreira que, posteriormente, ajudaram-no a se tornar mais conhecido. “Agora eu tirei esse tempo pra mim, mereço fazer o que eu gosto, minha família está criada!”, afirma.
Imagens do ateliê de Jorge Braga:
A influência da mãe Lerinha e do Vale do Jequitinhonha
Quando questionado sobre as motivações da sua produção, ele afirma que começou em casa, ainda menino, no Vale do Jequitinhonha, observando as irmãs e a mãe, que era também artesã e faleceu recentemente, aos 102 anos, a dona Lerinha Teixeira Braga: “Minha mãe vestia o noivo e a noiva dos pés até a cabeça”.
Segundo o artista, sua mãe era habilidosa em qualquer serviço criativo em que botava as mãos, sobretudo naquilo que envolvesse a costura. Muito procurada pelas noivas da região, costurava a roupa para celebração do matrimônio, produzia o véu, acessórios e até mesmo o buquê.
Fazia também o enxoval em quilting, técnica associada ao patchwork, e pela qual ficou bastante famosa na região, pois a executou até o final da vida. A técnica consiste em unir milimetricamente retalhos para formar colchas em padrões geométricos multicoloridos, e está presente em vários cantos do ateliê do artista que ele mostra cheio de orgulho: “Isso é arte pra quem dá valor! Leva uma pra você emoldurar!”

Grande parte das suas influências advêm dessas mulheres fortes do Vale do Jequitinhonha, pessoas habilidosas, como as de sua família, que, nas artesanias, encontravam solução para as adversidades, e inclusive o próprio sustento.
Coleta de histórias: o processo escultórico que se produz pelos materiais
Representando objetos e personagens em peças que fazem uso de metais, madeiras, couro e barro, associando-os e ressignificando-os muitas vezes de maneira mista, o artista pacientemente procura fazer as partes se aglomerarem no todo, fazendo surgir uma nova forma.

Jorge diz ter pouco estudo formal e confessa, em tom de exclamação, que é um péssimo desenhista, afirmando que suas peças “vão saindo”, sem que haja algum planejamento de base.
O material sugere uma forma que, por sua vez, sugere o material. Assim, suas obras únicas não têm esboço, nascem à medida que o artista entra em contato com a matéria, coletada das formas mais variadas: os elementos podem vir da sucata de ferro, de madeiras encontradas na natureza ou em despojos de demolição, e até mesmo ossos de animais, que encontra nas trilhas que costuma fazer pelo Norte de Minas.
Após recolher os materiais, Jorge os organiza em categorias para utilizá-los conforme ideias que surgem.
Caminhando por seu ateliê, é possível observar trabalhos acabados em madeira, ossos, metais variados, e até mesmo feitos com modelagem em couro – técnica mais recente, que o artista vai apresentando enquanto fala sobre a história de cada objeto. Ele diz que seus processos de produção estão sempre atrelados à alguma história, a algum amigo.
Ao mesmo tempo, cada trabalho também tece sua própria história, se perfaz na sua jornada. Foi possível observar peças em andamento, feitas sem pressa, fragmentos que aguardam pacientemente sua hora de terminar de esculpirem-se e serem esculpidos, às vezes à espera de um único material que irá torná-los uma obra completa, e que pode vir de qualquer canto.
Forma, tema e estilo: de São Francisco de Assis a Don Quixote de La Mancha
Pelas paredes do ateliê, em mesas de canto e prateleiras, ou expostos no móvel central, veem-se figuras alongadas, que se espalham pelo espaço. Homens de rostos esticados e pernas e braços ainda mais longos, que olham resignadamente para frente ou para cima.
As expressões costumam ser simples, nas feições magras que ostentam barbas, com elementos, adereços e indumentárias que variam de acordo com os personagens retratados. As figuras variam de cerca de 40 centímetros a mais de dois metros, e vão povoando o espaço pouco a pouco, conforme extrapolam a mente do artista e ganham materialidade.
Representam desde homens comuns do imaginário histórico do Norte de Minas, como garimpeiros e tropeiros, a figuras sacras e literárias. Em particular São Francisco de Assis e Dom Quixote de La Mancha – acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, ou não.

Jorge afirma que estes dois são sua temática preferida.
Sobre o Santo, o interesse de representá-lo surgiu pela gratidão a Padre Henrique, um franciscano, figura histórica da cidade de Montes Claros, que o acolheu em 1979, quando ele se mudou do Vale do Jequitinhonha para a cidade. Já sobre Dom Quixote, o artista afirma que o encanto é mais antigo: surgiu ainda na infância quando foi presenteado com um livro que trazia sua história.
O livro, pesado e recheado de esmeradas ilustrações feitas em litografia, está exposto permanentemente no ateliê para quem quiser conhecer um pouco mais sobre as inspirações do artista, e torna palpável o fascínio que o contagiou desde tão cedo.


Jorge Braga: arte que se faz no fluxo do processo
Pela semelhança estética das obras, não é possível deixar de lembrar de Alberto Giacometti, escultor suíço que trazia em seu trabalho esculturas também notadamente alongadas, e com visível aura introspectiva, melancólica.
A fragilidade do “O Homem que Caminha” (1961), bem como a rugosidade de sua pele, a exemplo, causam grande impacto emocional em quem o observa. A motivação de Giacometti, contudo, era distinta, pois seu trabalho era instigado pelo trauma do pós-guerra, de acordo com Jean Genet, um dos estudiosos da sua obra.
Quando questionado sobre suas referências, pela semelhança de suas figuras alongadas com o trabalho de Giacometti e a evocação da fragilidade da figura humana, Jorge, todavia, informa que, apesar de conhecer Giacometti, suas referências se baseiam simplesmente na construção psicológica das personagens, nas personalidades, como a frugalidade de São Francisco e Dom Quixote…
Conclui, então, que sua arte não é feita a partir de projetos prévios, ou modelos de produção, seguindo um fluxo de consciência que vai se sustentando no que há disponível no momento da criação.


A obra de Jorge Braga se faz e se resolve na procura que agencia a criação, vai-se criando num processo, resolvendo-se numa mediação entre a matéria que surge e a subjetividade que agencia, a partir do seu repertório imaginário e das suas emoções. É um processo de tentativas, de tateamento continuado do fazer artístico.
Seus personagens se fazem nesse encontro de formas, que aludem à sua própria essência de permanente (re)construção.
No espaço de ateliê, que é também uma extensão de sua morada, o artista sintetiza sua poética de maneira simples e objetiva: “Não tenho vontade de ir embora, nem pressa de fazer as peças, e gosto de mexer com tudo, couro, argila… E assim eu vou tentando (…) A gente faz arte pra embelezar o mundo!”.
Contato do artista: @ateliejorgebraga | 38 988499078
Acesse o instagram do artista:
Outras obras do artista:

Isabella é entusiasta da produção de Arte local, professora na Educação Básica e também no Ensino Superior.













