
Arte como cheiro
Um dos primeiros exemplos de arte olfativa na produção artística recente aconteceu na “Exposição Internacional do Surrealismo”, em 1838, quando o poeta Benjamin Péret se pôs a torrar café por detrás dos quadros em exposição, produzindo uma mediação das obras condicionada pelo cheiro exalado.
Contudo, o sentido do olfato tem sua importância em eventos e festivais que antecedem, em muito, a rigidez das demarcações da Arte Moderna: diversas religiões empregam incensos e aromas nos seus ritos e cerimônias como forma de purificação e mesmo divisão de uma espacialidade imaterial.

De acordo com Mircea Eliade, para o religioso, existe “um espaço sagrado, e por consequência “forte”, significativo, e há outros espaços não sagrados, e por consequência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos”. E o cheiro pode ser um elemento do que o autor denomina hierofania – algo que manifesta o divino e separa qualitativamente o espaço, demarcando a diferença entre o sagrado e o profano.
Voltando ao espaço da arte, ao tratar da participação do espectador, Hélio Oiticica aponta que existem as participações “sensorial-corporal” e “semântica”.

A primeira envolve que o espectador manipule objetos, atue num espaço lúdico, componha com seus sentidos e subjetividade a obra, podendo o olfato ser evidentemente aproveitado nesses experimentos artísticos, embora ainda seja relativamente pequeno o número de obras que explore seu uso.
Apesar de ainda subaproveitada no âmbito das artes, a arte olfativa revela um potencial extremo: cheiros podem ser estimulantes, como na obra “Hipótese da grua“, de Carten Holler e François Roche, e não apenas a percepção de cada cheiro e as sensações que ele traz se diferenciam muito de pessoa para a pessoa, como o cheiro é um dos elementos que mais apelam à memória e a respostas corporais imediatas.
Nesse aspecto, fica a pergunta: quais cheiros te rementem a quê?



