
Arte como espelho
“Narciso acha feio o que não é espelho”, diz Caetano Veloso, na música “Sampa”, de 1978. Já o dramaturgo inglês George Bernad Shaw uma vez afirmou: “você usa um espelho para ver sua face e usa uma obra de arte para ver sua alma”.
Ambas as noções estão na ideia de arte como espelho, que remota ao conceito de mimese. Ou seja, da arte como imitação da natureza.

Esse entendimento foi consagrado pelos gregos e permanece como um sentido comum da arte para grande parte das pessoas ainda na atualidade.
Na sua “Poética”, Aristóteles fala que toda forma de poesia clássica, bem como a música, são formas de imitação e traça um paralelo com a pintura: alguns imitam “através de cores e figuras (…)”. Ele também diz que a imitação pode ser positiva, negativa ou equivalente: “Polignoto desenhava os homens mais belos, Páuson mais feios, e Dionísio tal e qual eram”.

Desse modo, a noção de arte como espelho traz consigo duas condições inerente ao objeto: o reflexo, que infere a noção de reflexão, e as possibilidades de distorção.
De um lado, diz da autodescoberta, da capacidade de encontrar uma verdade numa luz reflexiva que amplia a visão; do outro representa uma alegoria das ilusões, do autocentramento e das vaidades.
Aqui, o convite dessa obra é justamente à autorreflexão que promove os melhores autorretratos:
Você, quando se olha no espelho, vê a imagem de alguém que condiz aos bons valores que costuma defender?




