Arte como tactilidade

Arte como tactilidade

Não toque na obra” é um aviso comumente visto em museus e galerias. A interdição ao toque geralmente promove uma linha que separa uma proximidade quase uniforme à vida da contemplação: devotos procuram tocar esculturas e objetos devocionais e, quando impedidos, só lhes resta a contemplação.

Durante muito tempo, a noção da distância correta para apreciação da obra esteve em pauta. Aristóteles diz que se a visão não abrange o objeto, escapam sua “unidade e a totalidade”; Kant, na sua estética, defende a contemplação “desinteressada”, como forma de remover afetos que condicionam expectativas que incidem sobre a arte.

Seja, portanto, uma distância física, seja ela subjetiva, a proximidade que conduz à tactilidade só pode ter razão de ser nas desconstruções que levaram às noções de outros suportes, como da Arte como corporeidade, incluindo seus afetos.

No Brasil, efetivamente antecede e abre espaço para a participação do espectador.

Escultura interativa da série “Bichos” (1960) – Lygia Clark

As experiências neoconcretas, empreendidas com base principalmente na “Teoria do não-objeto” de Ferreira Gullar, conduziram ao questionamento do cavalete e à noção da espacialidade da pintura, eventualmente chegando à sua tactilidade.

Grande núcleo” (1966) – Hélio Oiticica

No texto de 1959, “A transição da cor do quadro para o espaço e o sentido da construtividade”, Hélio Oiticica diz que os experimentos de Aloízio Carvão o levaram a um sentido de “tactilidade da cor”, “chegando intuitivamente ao sentido de ‘corpo da cor’”. Algo que também pode ser visto nos “Grandes núcleos” do próprio Oiticica, espécies de labirintos espaciais de cor.

Mas as noções de tactilidade são ainda mais amplas: como se sabe, as texturas são óticas e táteis. Trazê-las, principalmente as táteis, para o âmbito da produção artística representa não apenas uma porta para ampliação dos sentidos envolvidos na arte, como também para inclusão: muitos espaços culturais têm se empenhando em tornar obras visuais obras táteis, a fim de mediá-las para pessoas com deficiências visuais.