Cozinhaverso: conheça os personagens

MORTE-VIDA

Dialética da morte e vida personificada, Morte-Vida não é a Morte, tampouco a Vida. Mas a constância de que todo processo de morte e de vida inclui o seu oposto.

Infinitamente sensível, nada tem da autoridade associada a entidades do seu tipo, antes é dotada de uma humildade, paciência e cuidado que só os que viveram (e morreram) muito aprendem a ter.

Sua maior interlocutora é uma mudinha que ela mesmo plantou e que, hoje, já é uma arvorezinha.

“Os humanos superaram minha eficiência há tempos”

BRUXA MELINDA E GATO PRETO

O nome do gato preto é Gato Preto mesmo e, tirando o pequeno detalhe de ser falastrão, é absolutamente gato: preguiçoso, dorminhoco, comilão…

Melinda, sua dona, é uma bruxa independente, repleta de receitas secretas para as mais diversas poções que, às vezes, desandam porque, apesar de talentosa, ela também é ligeiramente atrapalhada.

Ambos vivem isolados, com medo de serem jogados nas fogueiras das inquisições da vida. Mas Melinda tem um coração infinitamente bom, cujo tamanho só é comparável com a sua também infinita capacidade de praguejar quando as coisas não saem do seu jeito.

CAPITÃO E MARUJO

Apátridas, párias e soltos no mar da vida, Capitão e seu Marujo já têm tudo de que precisam: seu barco e nenhuma expectativa com relação à sociedade humana.

Sua vida é navegar de acordo com as correntezas e intempéries de cada dia, seguindo seu próprio código de ética, cujo maior preceito é ir de encontro às turbulências do inexorável, com a coragem e dignidade de quem sabe que toda viagem é só parte de uma única jornada que antecede a viagem final.

Ambos raramente atracam. Apenas repõem os mantimentos que precisam e continuam, içando suas velas nos sopros de vida que lhes restam, pois que viver não é preciso, navegar é!

NESTOR E PRECIPÍCIO

Nestor é um jovem que, certo dia, enfezado com a vida, saiu para andar pela mata e, quando parou à beira de um abismo para gritar sua frustração com o mundo, descobriu que o mundo ouvia… e respondia! Ou, pelo menos, uma parte geológica dele.

Precipício carrega a sabedoria mais que milenar acumulada pela vivência de eras e mais eras de vida e extinção neste planeta. Sabedoria que ele compartilha em módicas doses homeopáticas que nos atingem como um terremoto na alma.

Há quem se engane achando que suas respostas são apenas ecos do que falamos. Mas o que Precipício faz é dar espaço para que encaremos nossos próprios abismos internos (mesmo que isso geralmente nos faça querer se jogar dum precipício logo depois).

D. IRENE E ALBERTO

Alberto é a prova a vida de que, com o aumento da expectativa de vida, não precisamos apenas nos preocupar com a previdência financeira, mas também com a previdência do espírito.

Rabugento, mal humorado e retrógado, ele se considera dono da verdade quando não passa de um acumulado de ressentimentos e objeto de chacota de D. Irene, sua esposa, que optou pelo caminho contrário.

D. Irene aprendeu que a melhor forma de envelhecer é saber ri de si mesma e se livrar – ou pelo menos debochar – dos pesos que se carrega, em particular este com quem ela se casou e prometeu amor eterno (só rindo mesmo!).

DÉCIO GONÇALVES

Notícia e informação direta e sem rodeios é com Décio Gonçalves, âncora e editor-chefe do CG NEWS, o jornal mais assistido por D. Irene e Alberto, e pelos milhões de expectadores gráficos do Cozinha Gráfica.

Estranhamente, as notícias do jornal do Cozinha Gráfica refletem claramente dados e fatos da nossa vida de carne e osso, o que coloca Décio Gonçalves numa imensa vantagem com relação aos jornalistas reais.

Afinal, quem pode falar melhor, de forma mais honesta e objetiva, sobre os absurdos da vida que um jornalista de cartoon, cuja realidade pelo menos tem a prerrogativa do absurdo, diferentemente da nossa, que se propõe a ser levada a sério?

JEOVÁ

Ele é Deus, mas pode chamá-lo de Jeová. Ele criou o mundo e, no sétimo dia, descansou. Ele viu que isso era bom, e tem sido assim desde então.

Não se sabe se seu descanso é autoderteminação do determinismo divino, ou um obstinado livre-arbítrio de deidade. Mas Jeová também não se preocupa com isso. Afinal, Ele não é nenhum teólogo (embora tenha criado alguns). Ainda assim, nutre um amor fundamental e eterno por todas as suas criaturas que, contudo, costumam confundir amor com paixão, cair em fanatismos e atrapalhar a coisa toda.

“É difícil que criaturas finitas sejam capazes de contemplar a infinidade da criação, mas elas poderiam pelo menos tentar um pouco, sem que pra isso tivessem que matar uns aos outros”, é o que Ele pensa.

SUPER-MORTE

Super-Morte é o retrato, em carne e osso – quer dizer, em apenas osso, do herói verdadeiro: ele não dá a própria vida para salvar a sua (até porque ele não tem exatamente uma vida, antes uma existência), mas ele te salva dessa para uma melhor.

Seu cinto de inutilidades inclui água-benta, crucifixo, e uma série de outras coisas que ele não usa, com exceção das palavras-cruzadas, que são sempre boas para matar o tempo.

Obviamente, ele traja uma adorável cueca cinza sobre a ossada nua. E talvez seja a figura mais descolada que você vai ver na vida. O problema é que geralmente também é a última coisa que você vai ver na vida.

REI NU

O Rei está nu. E ele tem plena consciência disso! Rei nu é a alegoria da verdadeira transparência do poder: para cada negociata e tramoia por debaixo dos panos, há inúmeras exposições públicas dos valores condenáveis de governantes que a população, contudo, insiste em contemporizar.

Por isso, Rei nu não tem pudores em exibir-se como é. Os que querem vê-lo despido, que o vejam, os que querem vê-lo vestido, também. O importante é que permaneçam súditos e obdedientes.

Em uma das versões da “Roupa nova do Rei”, de Andersen, diz-se que, depois que a criança apontou que o rei estava com a “banguela de fora”, o Rei não se fez de rogado e ainda ostentou uma pose, deixando todos em dúvida se havia ou não roupa. Essa é a versão que o “Cozinha Gráfica” considera.

CAPITÃO EGO

A absoluta fragilidade do Capitão Ego é inversamente proporcional à dureza da couraça que ele ostenta e da imagem que ele tem de si.

Um espelho, como o que ele tem no escudo, poderia lhe fazer bem, se ele tivesse a coragem de encará-lo desmontado de sua armadura, ao invés de direcioná-lo aos seus inimigos – e se ele conseguisse suportar psicologicamente ver-se como realmente é.

O que há debaixo dos metais, ninguém sabe (nem o próprio). Possivelmente, algo pequeno, amórfico e frágil. Mas ele provavelmente se diria como: “imorrível, imbroxável, incomível” e etc.

HELENA

Helena tem várias personalidades. Todas elas ácidas. Mas seu grau de acidez varia tanto quanto as cores do seu cabelo. Ainda assim, a raiz é a mesma: uma menina inteligente demais para uma sociedade imbecil demais.

Helena não tem muita paciência para as pessoas, e para as coisas que as pessoas fazem. E só o que a deixa ainda mais impaciente são as coisas que as pessoas não fazem para continuar a fazer o que fazem.

Mas não se engane: Ela sabe muito bem o paradoxo que é ser um ser humano e achar os seres humanos absolutamente odiáveis. Por isso, tem vezes que nem ela mesma se aguenta. Deve ser por isso que ela muda tanto!

AS CRIANÇAS

Em uma vida cada vez mais infantilizada, nada mais natural que aqueles que ainda tenham a curiosidade de um mundo a descobrir, e uma a plasticidade neural de um corpo em desenvolvimento, sejam às vezes mais inteligentes e perspicazes que muitos adultos.

As crianças conservam a inocência de quem não entende o mundo. O que significa que obviamente elas nos dizem mais do mundo do que aqueles que acham que entendem o mundo. Qualquer pessoa que ache que entenda o mundo provavelmente só sucumbiu ao mundo.

Mas não se esqueça: elas são apenas crianças. Portanto elas também vão fazer coisas tipicamente de crianças que realmente não entendem nada do mundo e que só estão interessadas em comer um lanche de fast food.

OS DILETANTES

Os Diletantes têm uma compreensão fleumática e absurda da realidade. Ou seria a realidade que permite ter uma compreensão absurda e fleumática sobre ela?

O diletante é quem costuma ter uma atitude imatura diante das regras e normas que uma atividade requer. Nesse caso, talvez a atividade em questão seja a própria vida e suas regras de conduta – apesar de eles sempre atenderem muito bem à norma culta e à etiqueta da vestimenta.

Fato é que, no contraste com sua forma de ver o mundo, eles acabam por desnaturalizar o que é tomado como corriqueiro e, sem querer e perceber, revelam muitos dos absurdos que esquecemos de ver com a devida distância e estranhamento.

OS INTELECTUAIS

A distância entre um diletante e um intelectual são só os diplomas e referências– Você sabe quem falou isso? Não? Os Intelectuais também não, mas nunca vão admitir, e ainda vão dizer que a frase lhes remete ao pensamento de outro autor.

O mundo dos Intelectuais é feito não pelo mundo, mas pelos autores que escreveram sobre o mundo. Tampouco o mundo dos Intelectuais é feito por suas próprias conjecturas, mas pelas referências em que eles embasam o pensamento para não terem que pensar por conta própria.

Ainda assim – ou talvez por isso, eles podem ser bastante críticos e exigentes para com o pensamento alheio. Afinal, o que seria da vida se não fossem os apuds e edições revisadas? Provavelmente apenas o que ela é mesmo.

OS ELEMENTARES

Os Elementares estavam aqui antes do planeta surgir. Eles estavam aqui antes do universo surgir. Eles estavam aqui antes de eles mesmos surgirem.

Os Elementares estavam e estarão aqui. Aliás: aqui, ali e em qualquer lugar! Mas, principalmente, eles estarão onde estarão e eles serão o que eles serão. E continuarão a estar e a sê-lo enquanto estiverem e serem. 

Mas o que eles são? Ora bolas, não é óbvio? Eles são Elementares! E, como eles existem a despeito de tudo que exista, eles evidentemente não se importam com nada que existe (nem com eles mesmos, é claro).

O PSICANALISTA

“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo” – é uma frase atribuída a Freud que ninguém sabe se é dele mesmo. O que nos leva à consideração de que: quando a internet fala que uma frase é de Freud, isso diz mais da internet do que de Freud.

Para não perder a oportunidade da referência, o fato é que, quando o psicanalista do Cozinha Gráfica fala, a gente também acaba sabendo mais da pisque dos quadrinhistas do Cozinha Gráfica, do que do próprio psicanalista.

Mas isso já era esperado. Ou você achava que um personagem de linha e forma pensaria por conta própria? Já pensou em procurar um psicanalista?

Os personagens do “Cozinha Gráfica” são propriedade intelectual dos seus criadores. Seu uso, sem autorização expressa, é proibido e suscetível às devidas sanções legais.

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