Arte e Natal: Obras com temas natalinos para conhecer

Por:
Prof. Me. Lucas Carvalho (Orientador)
Guilherme Correia Silva (Bolsista de Iniciação Científica pela FAPEMIG)
Phelipe Mateus Soares Batista (Orientando de Iniciação Científica Voluntária)



Então é Natal

Feriado religioso ou época de celebração da sociedade do consumo? Dia de meditação e reunião familiar ou de exageros e festança? O período e o dia do Natal carregam consigo inúmeras contradições. Em que outro momento do ano fala-se tanto de paz e apregoa-se bons votos e, ao mesmo tempo, uma excitação quase agressiva parece tomar conta do espírito coletivo?

O Natal tem essa característica de comportar tensões das mais antagônicas: bondade e generosidade caminham, de mãos dadas, com o desejo pelo consumo e hedonismo. Essas contradições advêm da própria história da data, somando um miríade de signos e significados que produzem uma verdadeira miscelânea de sentidos e, consequentemente, de comportamentos.

Árvores de Natal, que remontam às festas pagãs, convivem com os papais noéis, derivados da figura histórica de São Nicolau, assumindo a mitologia contemporânea e mercadológica das renas e trenós, junto aos quais se somam os presépios que marcam a importância da data para o cristianismo.

Artistas de diversas épocas e em diferentes meios se enveredaram por esses símbolos, com intenções também diversas, ora devocional e ilustrativa, ora crítica e irônica.

Instalação com ávore de Natal de cabeça para baixo na Tate Britain (2016) – Shirazeh Houshiary (tradicionalmente, a Tate Britain convida artistas contemporâneos para produzirem obras com árvores de Natal ao final de cada ano)

A seguir, algumas obras com o tema do Natal para animar os espíritos estético e natalino para a data.


O presépio de Gauguin

Para a tradição cristã, 25 de dezembro marca o nascimento da sua principal figura, Jesus Cristo, tornando-se, portanto, uma das principais datas comemorativas do calendário da Igreja.

O chamado “Ciclo do Natal” é celebrado durante doze dias, estendendo-se de 25 de dezembro a 6 janeiro. Esse período corresponde ao tempo que os três reis magos, Baltazar, Gaspar e Melchior, teriam levado para chegar à Belém, local de nascimento de Jesus.

A adoração dos Reis Magos” (1303) – Giotto di Bondone

Mas o Natal teve origem em festas pagãs de outras culturas. Foi a partir do século IV, com a consolidação do Cristianismo, que a festividade passou a ser oficializada como Natale Domini, ou “Natal do Senhor“. Como não se sabia precisamente a data de nascimento de Jesus, assumir o 25 de dezembro foi uma forma de cristianizar as festas pagãs, conferindo-lhes nova simbologia. A escolha da data foi formalizada pelo Papa Julius I (337-352) e, posteriormente, declarada como ferido nacional pelo Imperador Justiniano, no ano de 529.

Bebê (O nascimento do Cristo taitiano)” (1896) – Paul Gauguin

A obra “Bebê“, também conhecida como “O nascimento do Cristo taitiano”, de Paul Gauguin parece ser capaz de organizar e desorganizar todas essas contradições e sobreposições do Natal: uma representação do nascimento de Jesus, feita por um artista Francês, mas radicado no Taiti, que subverte a própria iconografia europeia consagrada para a família nazarena com personagens cujos rostos trazem as características etnográficas locais.

A obra reflete o que Gauguin traz consigo na própria história de vida: a dualidade sagrado-profano, e a relação de fluxo constante entre esses binômios segundo seu referencial: o que é sagrado para uns pode ser profano para outros e vice-versa.

Aos 11 anos, foi internado no seminário Chapelle-Saint-Mesmi, onde empreendeu estudos teológicos da juventude. Mais tarde, passou a vida adulta rebelando-se contra a moralidade da sociedade europeia tradicional, o que o levou a procurar diferentes modelos de vida, viajando para a Polinésia. Contudo, nunca deixou de se interessar pelo tema do sagrado.

O nascimento de Cristo“, também de 1896, é outra obra de Gauguin que trata do mesmo assunto. De fato, parecem dois ângulos da mesma cena: ao passo que, na primeira imagem, a mulher está deitada ao fundo, na segunda, ela aparece em primeiro plano. Em ambos os casos, tem uma auréola na cabeça.

Para um fundamentalista, acostumado com uma imaginária europeia, o presépio de Gauguin pode ser visto como uma afronta à tradição religiosa. Para outros, pode significar inversamente a beleza de uma comunhão que perpassa todas as culturas, independentemente da sua crença, na celebração de uma vida gerada que guarda consigo a centelha divina – que é, de fato, a essência do presépio; o divino que se faz carne e tem uma experiência humana.

Dentro da tradição cristã, se Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, essa imagem e semelhança deve atender a todos os povos. Como o próprio pintor escreveu, no ensaio “A Igreja Católica e os Tempos Modernos“, quando cria numa ideia, comum à época, de que todas as crenças e mitologias tinham uma base comum:

“Deus não pertence aos cientistas, ele pertence aos poetas, ao reino dos sonhos, Ele é símbolo da Beleza, a própria Beleza”.

Paul Gauguin

A Saturnária de Ernesto Biondi

Antes de sua apropriação pelo cristianismo, a semana do 25 de dezembro demarcava a chegada do solstício de inverno no hemisfério norte. Portanto, a data invocava diversas formas de celebração em variadas culturas. Os mesopotâmicos, por exemplo, celebravam o chamado “Zagmuk”, uma festa pagã em que um homem era escolhido para ser sacrificado. Isso porque acreditavam que, ao fim do ano, alguns monstros do caos se alvoroçavam e caberia a Marduk, seu principal Deus, derrotá-los com a ajuda do sacrificado.

Romanos na decadência” (1847) – Thomas Couture (uma tradição consagrada da representação histórica na arte ocidental costuma associar as imagens da “Saturnália” à decadência do Império Romano).

Mas talvez a festa pagã mais conhecida a antes estar no lugar do Natal tenha sido a Saturnália, feita pelas romanos para homenagear Saturno, deus da abundância, renovação, tempo e agricultura. E muitas das suas tradições ainda hoje permanecem no nosso Natal, como as decorações e troca de presentes.

Durante sua celebração, negócios, escolas e tribunais eram fechados, as pessoas enfeitavam suas casas com coroas de flores e outras plantas e trocavam suas roupas normais por peças coloridas. Até mesmo os escravos participavam das festividades, invertendo sua posição social: sentavam-se à cabeceira da mesa enquanto eram servidos pelos senhores. Nessa dia, não trabalhavam, e sim, passavam o dia cantando, festejando, socializando e trocando presentes uns com os outros. A cerei, uma vela de cera, era um presente bem comum de se dar e simbolizava o retorno da luz após o solstício.

Saturnália” (fundição de 1909) – Ernesto Biondi

A obra “Saturnália”, do Italiano Ernesto Biondi, fruto de 11 anos de trabalho, apresenta um conjunto de personagens que simbolizam diversos extratos da antiga sociedade romana em festejo; de escravos e gladiadores a sacerdotes e patrícios. Sua história involuntariamente alude complemente e às noções de tempo e renovação atribuídas à Saturno:

Ganhou o grande prêmio da Exposição Universal de Paris de 1900, mas, posteriormente, ao ser exposta no Metropolitan Museu de Arte nos EUA, foi mal-recebida por público e crítica, considerada imoral e obscena.

Em 1907, o escultor argentino Hernán Cullen Ayerza requisitou que Boldi fizesse um exemplar para Buenos Aires. A obra, todavia, ficou presa por anos na alfandega, sob rejeição estética dos oficiais do país. Quando, enfim, ingressou na Argentina, Hernán a colocou no jardim de sua residência e, em 1934, doou-a ao Museu Nacional de Belas Artes. Mas ela nunca chegou a ser exposta.

Anos mais tarde, com a ditadura cívico-militar que assolou o país entre 1976-1983, foi considerada imoral pelas autoridades e ficou jogada num estábulo, coberta de esterco até que, finalmente, em 1987, foi doada ao munícipio e instalada no Jardim Botânico de Buenos Aires, onde se encontra até hoje.

Detalhe de “Saturnália” (1907) – Ernesto Biondi. Foto de Alberto Brescia. Fonte: https://elojodelarte.com/patrimonio/la-saturnalia-de-ernesto-biondi
Detalhe de “Saturnália” (1907) – Ernesto Biondi. Foto de Alberto Brescia. Fonte: https://elojodelarte.com/patrimonio/la-saturnalia-de-ernesto-biondi

Feita com o objetivo de ilustrar a decadência moral da sociedade romana, a trajetória de “Saturnália” acaba por ilustrar também os ciclos e renovações estéticas da sociedade, seus fluxos de liberdade e opressão. E ironicamente mostra que a verdadeira decadência moral acontece quando, sob a defesa do moralismo, cerceiam-se as liberdades, subjugam corpos e extinguem a alegria e a arte.

Assim, tal como os romanos celebravam o retorno da luz após o solstício, também devemos celebrar, com muita festa e dança, sempre que há o fim de tempos políticos sombrios.


As árvores de Natal de Paul McCarthy e Oskar Dawicki

Um dos símbolos mais representativos da festa, a árvore de Natal remonta a diversas tradições antigas que faziam uso de plantas como objetos de decoração. Plantas que permaneciam verdes durante todo o ano era penduradas em janelas e portas e, para algumas culturas, inclusive afastavam bruxas, fantasmas, espíritos malignos e doenças. Como dito, na própria Saturnália sempre-vivas eram colocada de decoração em templos e casas.

Gravura em Metal de “Martinho Lutero e família diante da árvore de Natal” (1860) – J. Bannister
Árvore” (2014) – Paul McCarthy. Getty Images.

Já as primeiras árvores de Natal modernas surgiram no séc. XVI, na Alemanha. Atribui-se a Martinho Lutero, líder da reforma protestante, o primeiro uso de velas para iluminar a árvore. Segundo ele, o pinheiro, árvore resistente a rigorosos invernos, seria símbolo da paz e esperança, assim como Jesus.

Mas será que é isso que a árvore de Natal realmente representa atualmente?

Em 2014, a escultura insuflável de uma árvore de Natal em formato peculiar foi erguida uma única vez durante a Feira Internacional de Arte Contemporânea, em Paris. Produzida pelo artista Paul McCharthy, seu formato, imediatamente associado a um brinquedo sexual pelo grande público, causou controvérsia, levando a obra a ser retirada por movimentos tradicionalistas sob o argumento de não se tratar de uma árvore e sim um sex toy.

Todavia, ao fazer essa associação direta do fetiche mercadológico com um objeto de fetiche sexual, McCharthy parece nos lembrar freudianamente que a raiz de todo desejo é de cunho erótico e que o mercado de consumo que movimenta o período natalino é todo ele gerado a partir de um processo de sexualização, que erotiza produtos e compele ao desejo pelo consumo.

Assim, por debaixo de toda uma capa de músicas alegres, e uma iconografia que apela ao lúdico e ao imaginário infantil, existe uma máquina de manipulação libidinal do público, ávido por consagrar sua satisfação num produto alçado à condição de objeto de desejo. E o totem desse mercado natalino talvez seja mesma essa grande árvore-objeto sexual feita pelo artista.

Árvore” (2014) – Paul McCarthy

Se, por um lado, a obra de McCharty aponta para a comunhão social em torno do consumo, a obra de Oskar Dawicki trata justamente da falta de comunhão familiar que, apesar das aparências, dá a tônica em muitos lares.

Após o Natal para sempre” (2005) – Oskar Dawicki

Na instalação, uma árvore de Natal artificial, fabricada em larga escala, é colocada sobre um jornal solitariamente dentro da galeria. A árvore tem galhos ralos. O título da obra “Após o Natal para sempre” alude a uma condição que parece eterna e recorrente no Natal: a solidão do pós-ceia, a indagação se haverá outro Natal? Um sensação de melancolia que parece inadequada à celebração, mas que inevitavelmente se faz presente.

Entre a euforia do consumo e o esgotamento da festa, uma obra parece complementar a outra. A primeira dizendo da excitação e promessa de gozo que o Natal sempre engendra, e a segunda lembrando do anticlímax e da impossibilidade de satisfação plena que a ressaca do dia seguinte traz, como uma criança que imediatamente perde o interesse após abrir seu tão sonhado presente, pois que o desejo subjaz na falta.


O Papai Noel da Coca-Cola de Sundblom

Ícone de São Nicolau (1294) – Igreja de São Nicolau da ilha de Lipno, na República Tcheca

A figura do Papai Noel tem inspiração direta num personagem histórico, o bispo turco, posteriormente canonizado, que ficou conhecido como São Nicolau.

Levando adiante o dogma cristão do desapego aos bens materiais, São Nicolau tornou-se conhecido por suas ações de solidariedade e por distribuir presentes, incluindo uma história em que teria jogado moedas por uma chaminé, que caíram diretamente em meias, e livraram um pai de família empobrecido de ter que entregar as filhas à prostituição.

O “Sinterklaas”, como São Nicolau é chamado na Holanda, foi levado para os EUA por emigrantes que, em 1700, abriram uma igreja em sua devoção. Ali, ficou conhecido como “Santa Claus” (Papai Noel em inglês) e coube ao teólogo Clement C. Moore, através do poema “Uma visita de São Nicolau”, consolidar e adornar o mito de um velhinho que distribui presentes no Natal, adicionando as renas e o trenó

Mas antes de ter o visual característico que conhecemos hoje, o bom velhinho em suas primeiras representações, usava vestes de inverno em tons marrom ou verde, típicas de regiões frias, e era retratado com base na figura de São Nicolau, sendo um homem magro e generoso.

Comparação entre como o Papai Noel costumava ser representando e a imagem “Feliz velho Papai Noel” (1863), produzida por Thomas Nast

Apenas com o passar do tempo, o Papai Noel foi ganhando as características que estamos acostumados a ver: barba longa, peso, rosto corado e vestes vermelhas. Uma de suas primeiras representações como conhecemos hoje foi feita no ano de 1863, pelo cartunista alemão Thomas Nast.

Papai Noel da Coca-Cola” (s/d) – Haddon Hubbard Sundblom

Entretanto, a grande revolução iconográfica do Papai Noel aconteceu no momento em que sua imagem foi associada a uma grande marca, tornando ele próprio uma grande marca, quando Haddon Hubbard Sundblom, ilustrador americano, deu vida à versão visual que hoje conhecemos do bom velhinho para as campanhas publicitárias da Coca-Cola, na década de 1930.

As ilustrações fizeram um grande sucesso, sendo replicadas em todos os cantos do mundo e consolidando a imagem moderna do Papai Noel que, embora não tenha sido exatamente concebida por Sundblom, acabou por ser considerada, no senso comum, sua criação.

As imagens de Sundblom conferiram uma impensável trademark ao Papai Noel – fala-se abertamente “o Papai Noel da Coca-Cola” – e demonstram o poder e alcance da publicidade, vindo por sacramentar a íntima e ambígua relação entre tradição religiosa e cultura do consumo. Agora Papai Noel bebe Coca-Cola!

Papai Noel da Coca-Cola” (s/d) – Haddon Hubbard Sundblom

Os cartões de Natal de Andy Warhol

Se o Papai Noel é pop e bebe Coca-Cola, nada mais adequado do que incluir, nessa lista, obras do mais célebre representante da Pop Art, Andy Warhol. Warhol era um grande fã da data comemorativa. Inclusive, uma de suas séries, intitulada “Mitos”, traz a figura do Papai Noel.

De acordo com Mircea Elieade, o “mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial”, tornando-se uma verdade absoluta e fonte de origem. Em pleno século XX, cabe perguntar a que mito o artista se referia. Certamente, menos o mito de São Nicolau, e sim o mito da cultura pop norte-americana.

Mitos” (1981) – Andy Warhol

Acompanhando por ícones como o Mickey Mouse, Dracula e Super-Homem, esse panteão sagrado da mitologia da indústria cultural funda e promove a cultura de massa, tão indissociável do país e de sua identidade, que aparecem juntos com a própria personificação nacional dos Estados Unidos, o Uncle Sam.

Interessantemente, a figura do Papai Noel não apenas é a mais realista, como parece ter um olhar desconfortável para a câmera, como se o Papai Noel fosse uma celebridade que estivesse, naquele exato momento, sendo perseguido e fotografado por um Paparazzi. Ao que parece, sua nova condição mitológica exige uma irônica inversão: não tanto uma figura fantástica, mas uma espécie de estrela de cinema da sociedade do espetáculo.

Papai Noel” (da série “Mitos”) (1981) – Andy Warhol

Enquanto “Mitos” remete à profana santificação da cultura do consumo, um fato desconhecido por muitos é que Warhol era, de fato, um homem profundamente religioso, católico praticante, e que também explorou sua fé nas suas inúmeras obras de arte produzidas. Foi descoberto, após sua morte, que muitas vezes ele fazia trabalho de caridade na igreja do Descanso Celestial em Nova Iorque.

Esse lado mais delicado, devoto e apaixonado pelo Natal é revelado numa outra produção sua, menos conhecida. Tratam-se dos cartões de natal produzidos para a empresa Tiffany & Co.

Cartão com desenho de árvore de Natal (1957) – Andy Warhol
Cartão com desenho de árvore de Natal (1958) – Andy Warhol

Antes de fazer sucesso com obras em galerias, Wahrol trabalhou como ilustrador comercial, chegando a ser muito bem-sucedido e altamente pago. Após seu primeiro trabalho para a revista Glamour, ele passou a trabalhar para a Tiffany no ano de 1956, onde criou de tudo, desde anúncios de sapatos a cartões de Natal. Os cartões de Natal encomendados pela companhia foram originalmente publicados em todos os Natais desde que Wahrol ingressou até 1962.

Reimpressão feita pela Tiffany & Co. a partir dos desenhos originais.

Sua artes contam com desenhos com traços delicados, entre design comercial e artes visuais, às vezes quase esboços, com os símbolos tradicionais de Natal: desenhos de árvores de Natal feitas com frutas, renas, meias, presentes, doces. Fazem jus à mais nostálgica e afetiva visão do espírito natalino.

Desenhos para os cartões de natal (1956 e 1957) – Andy Warhol

Ironicamente, feitos sob encomenda, parecem revelar mais do ser humano Warhol do que a produção levada a cabo sob sua persona artística: o homem que uma vez disse que “queria ser máquina”, no fundo, acreditava no Natal.


O presente sem fim de Félix Gonzalez Torrez

Sem título (Retrato de Ross em Los Angeles” (1991) – Félix Gonzalez-Torrez

Qual presente é melhor: um presente infinito ou uma presença finita?

A obra “Sem título” de Félix Gonzalez Torrez nos conduz a essa pergunta. Também conhecida como “Retrato de Ross em Los Angeles”, de 1991, consiste simplesmente de 80kg de doces brilhantes e coloridos empilhados num canto. Mas essa pilha de doces é inesgotável: podem ser levados pelo público, sendo sempre repostos.

Félix Gonzalez Torrez foi um artista cubano radicado nos EUA que se habitou a produzir formas escultóricas inusitadas a partir de materiais comuns. Nesse caso, os 80kg da pilha de doces, sempre mantidos, correspondem ao peso do homem que a obra presta homenagem: Ross Laycock, companheiro de Félix, que morreu por complicações da AIDS em 1991, mesma doença que levou o próprio artista, em 1996.

Visitante pegando um dos doces da obra

Talvez os doces simbolizem uma personalidade dócil, ou mesmo apenas os prazeres fugazes da companhia um do outro. Avessamente, quanto mais a pilha permanece, sem escassear, mais ela remete à falta de quem simboliza. Diante da permanente impossibilidade da presença de alguém amado, ela nos faz pensar que nenhuma guloseima ou presente pode compensar a ausência insolúvel de uma pessoa querida.

E, ainda que não tenha sido feita especificamente com o tema do Natal em mente, a obra de Torrez nos rememora do verdadeiro espírito natalino: o maior presente que temos é celebrar a presença de quem amamos, pois que, sabendo da impermanência que o futuro nos reserva, qualquer motivo e possibilidade de estar junto é razão de regozijo.

Feliz Natal a todxs que nos acompanham!


Referências:

ALESP. Museu de Arte – Os eternos símbolos do Natal. 2011. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=304890#:~:text=Desejando%20celebrar%20o%20Natal%20dentro,missa%20de%20Natal%20em%201223. Acesso em 22 de dez. de 2022.

ART INSTITUTE CHICAGO. “Untitled” (Portrait of Ross in L.A.). S/d. Disponível em: https://www.artic.edu/artworks/152961/untitled-portrait-of-ross-in-l-a. Acesso em 22 de dez. de 2022.

CAMARGO, S. M. É fake news: não foi a Coca-Cola que vestiu o Papai Noel de vermelho. 2020. Disponível em: https://www.uninter.com/noticias/e-fake-news-nao-foi-a-coca-cola-que-vestiu-o-papai-noel-de-vermelho#:~:text=Foi%20em%201931%20que%20a,um%20Papai%20Noel%2C%20para%20sempre. Acesso em 22 de dez. de 2022.

Centre of Contemporary Art Znaki Czasu. After Christmas Forever. S/d. Disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/after-christmas-forever-oskar-dawicki/pAH2PWlJ7Ryoxg. Acesso em 22 de dez. de 2022.

DIANA, D. A verdadeira história do Papai Noel. S/d. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/papai-noel/. Acesso em 22 de dez. de 2022.

_________. História do Natal: origem, significado e símbolos. S/d. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-do-natal/. Acesso em 22 de dez. de 2022.

ELIADE, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 1ª ed. Martins Fontes Editora Ltda: São Paulo, 1992.

GAYDORD, M. Why would a dissolute rebel like Paul Gauguin paint a nativity?. 2015. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2017/12/sao-nicolau-o-que-voce-precisa-saber-sobre-lenda-do-papai-noel.html. Acesso em 22 de dez. de 2022.

HISTORY. COM EDITORS. History of Christmas Trees. 2009 (updated 2021). Disponível em: https://www.history.com/topics/christmas/history-of-christmas-trees. Acesso em 22 de dez. de 2022.

__________________________. Saturnalia. 2017 (updated 2022). Disponível em: https://www.history.com/topics/ancient-rome/saturnalia. Acesso em 22 de dez. de 2022.

MARTINIQUE, E. Andy Warhol and His Endless Love for Christmas. 2021. Disponível em: https://www.widewalls.ch/magazine/andy-warhol-christmas. Acesso em 22 de dez. de 2022.

MUSEO NACIONAL DE BELLAS ARTES. Saturnalia. S/d. Disponível em: https://www.bellasartes.gob.ar/coleccion/obra/6157/. Acesso em 22 de dez. de 2022.

PREFEITURA DE SANTOS. Conheça a história que deu origem à celebração do Natal. 2004. Disponível em: https://www.santos.sp.gov.br/?q=noticia/conheca-a-historia-que-deu-origem-a-celebracao-do-natal. Acesso em 22 de dez. de 2022.

QUEIRÓS, L. M. Escultura insuflável em forma de plug anal destruída em Paris. 2014. Disponível em: https://www.publico.pt/2014/10/18/culturaipsilon/noticia/escultura-insuflavel-em-forma-de-plug-anal-indigna-alguns-parisienses-e-diverte-outros-1673366. Acesso em 22 de dez. de 2022.

SASSONE, M. La Saturnalia de Ernesto Biondi. S/d. Disponível em: https://elojodelarte.com/patrimonio/la-saturnalia-de-ernesto-biondi. Acesso em 22 de dez. de 2022.

STUHAUG, Z. São Nicolau: o que você precisa saber sobre a lenda do Papai Noel. 2017. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2017/12/sao-nicolau-o-que-voce-precisa-saber-sobre-lenda-do-papai-noel.html. Acesso em 22 de dez. de 2022.

TIFFANY & CO. Greetings from Tiffany & Co. x Andy Warhol. S/d. Disponível em: https://www.tiffany.co.uk/stories/guide/tiffany-x-andy-warhol/. Acesso em 22 de dez. de 2022.

Publicado por Cozinha Gráfica

Pesquisa e produção artística ampliada na web.

Um comentário em “Arte e Natal: Obras com temas natalinos para conhecer

Deixe um comentário