Por Guilherme Correia Silva (pesquisador de Iniciação Científica)
Prof. Me. Lucas Carvalho Rôla Santos
(Orientador)
Índice:

Introdução: as adaptações de uma obra literária
O último dia 11 de dezembro viu a estreia na Netflix da adaptação seriada da premiada obra “Cem anos de solidão”. Seguindo o desejo de seu autor, Gabriel García Marquez, a série foi toda produzida na Colômbia, com equipe e atores do país.
Como toda adaptação literária, a obra audiovisual trará para o âmbito da visualidade videográfica um imaginário promovido em palavras.

As adaptações de livros tornam visíveis aquilo que está inscrito no âmbito imaterial do conceito semântico, algo que pode se mostrar uma faca de dois gumes:
Se, de um lado, permite dar uma forma inconográfica ao material original, traduzindo-o visualmente e ajudando, inclusive, que chegue a novos públicos. Do outro, a promoção de um imaginário único, oficializado por uma grande empresa, e com largo alcance, pode inviabilizar, ou solapar, as imagens mentais que cada leitor cria quando lê a obra textual.
O livro, todavia, permanece como a fonte original e, mesmo que uma adaptação visual possa ter legitimidade e permanência grandes, como nos casos de sucessos recentes como “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, sempre é possível reimaginar os universos que propõem, dando-lhes contornos estéticos diferenciados, sem fugir do material de origem.
Neste texto, vamos permanecer ainda no âmbito literário, empregando o próprio “Cem anos de solidão” para pensar nas próprias ilustrações que porventura acompanham os livros, discutindo o papel do ilustrador literário e como artistas podem dar visões diferentes para uma mesma obra, sem desvirtuá-la.
Para tanto, vamos traçar uma análise entre as ilustrações feitas pelos artistas Carybé e Luísa Rivera, bem como apresentar uma própria perspectiva autoral de produção de imagens para o livro.
O Realismo Mágico
O Realismo Mágico é considerado um movimento literário tipicamente latino-americano, que passa a ganhar maior expressão principalmente a partir da década de 1940, em contraponto ao realismo e ao naturalismo do séc. XIX.
O primeiro autor a utilizar o termo Realismo Mágico na América Latina foi Arturo Uslar Pietri, em seu livro “Letras y hombres de Venezuela”, que faz um apanhado do âmago venezuelano a partir de autores como Oviedo y Baños, Pérez Bonalde e Rómulo Gallegos.

O gênero é caracterizado pelo uso de metáforas e analogias em sua narrativa, com temáticas marcadas pela ocorrência de eventos mágicos e sobrenaturais tratados como coisas do cotidiano, sem necessidade de oferecer uma explicação racional para tais fatos.
Altamente fantasiosa, suas obras costumam apresentar uma linguagem não-linear, misturando passado, presente e futuro.
Tendo em vista os diversos regimes autoritários que se impuseram na América Latina, principalmente a partir dos anos de 1960, o Realismo Mágico tornou-se uma eficaz ferramenta de crítica e para burlar a censura, tratando de fatos da realidade a partir do prisma da fantasia, e também servindo para se pensar a formação sociocultural desses países.
Assim, temas como “independências, revoluções, disputas religiosas, luta pela terra, miséria, explosões do crescimento das cidades” (Legelski, 2021, p. 2) passaram a ser retratados por ficcionistas hispano-americanos em suas obras, cada um conforme suas características e experiências próprias.
Dentre os muitos autores que valeria a pena mencionar, podemos citar Miguel Ángel Asturias que, em “Hombres de Maíz”, de 1949, retrata a luta dos povos indígenas da Guatemala contra o imperialismo ocidental; Juan Rulfo, que escreveu o livro “Pedro Páramo”, de 1955, romance que oferece um retrato muita preciso do México do século XIX; e o próprio García Marquez, que, em 1982, recebeu o o prêmio Nobel por “Cem Anos de Solidão”, considerado uma obra-prima do gênero.


O livro narra a trajetória da estirpe Buendía ao longo de várias gerações na aldeia fictícia de Macondo, trazendo alegorias que permeiam questões de marginalização e opressão, relações de ocidente e oriente, colonização etc., numa história complexa, que traz romances impossíveis, guerras territoriais, dentre outros temas.
As ilustrações de Carybé e Luísa Rivera
Hector Julio Páride Bernabó, de nome artístico Carybé, teve uma prolífica carreira como ilustrador de diversas obras literárias, tendo sido inclusive premiado por seu trabalho nessa área.
Suas ilustrações para “Cem Anos de Solidão” datam de 1978 e foram presenteadas pelo próprio Carybé a Gabriel García Márquez, integrando todas as edições da obra publicadas no Brasil até 2013.
Elas são compostas por traços rápidos e fluidos, com ênfase no gestual e uma estilização caricatural. Os elementos são minimalistas e concentrados, aproveitando o espaço vazio do papel. Neste aspecto, não há sequer limitação por contornos definidos. Os desenhos ocupam livremente o espaço da folha.
Ilustrações de Carybé para “Cem anos de solidão“
De forma geral, suas ilustrações se apoiam na essência do desenho como linha e figuração sobre fundo branco, utilizando poucos, mas expressivos traços, que sugerem, de forma sintética, o todo, deixando que a visão e a imaginação do leitor complementem as áreas não preenchidas – da mesma forma que ocorre nos textos literários.
As ilustrações de Luísa Rivera, por sua vez, foram produzidas para uma edição de luxo da obra, de 2017, em comemoração aos 50 da sua primeira publicação.
Ao inverso das ilustrações sintéticas de Carybé, as ilustrações de Rivera são altamente detalhadas, produzidas em aquarela, com um tratamento mais realista – mas, é claro, dentro de um escopo do realismo mágico, com muitas camadas intricadas e elementos que procuram preencher cada espaço da composição.

Ilustrações de Luísa Rivera para “Cem anos de solidão“
O brilho das cores ressalta aos olhos, bem como as diferenças de composição: enquanto os desenho de Carybé parecem se concentrar nos personagens e ações principais, as ilustrações de Luísa dão um tom mais ambiental. Ou seja, colocam em grande evidência o espaço da ação.
Há nessa dicotomia de perspectivas, ademais, uma questão editorial a ser mencionada. Em 1978, recursos gráficos para impressão colorida eram limitados e caros e, mesmo com as melhorias técnicas, a impressão em P&B permanece consideradamente mais barata.
Portanto, o uso do preto e branco sem meio-tom de Carybé simplifica a impressão, evita problemas gráficos e reduz custos. Já uma versão de luxo permite a impressão de alta qualidade, em papel também de alta qualidade, favorecendo o trabalho minucioso de Rivera.
Uma perspectiva de ilustração autoral para o “Cem anos de solidão”
O objetivo primordial do ilustrador de livros é transformar o texto escrito em imagens a partir de determina(s) cena(s), de maneira a auxiliar e ampliar a compreensão e apreensão da obra. Não se trata somente de uma tradução imagética, mas da produção de camadas visuais que adensam e complementam, sem desvirtuar, o sentido narrativo.
De acordo com Andrade (2013, p. 6), “a ilustração conquista a autonomia desejada e garante o equilíbrio entre as linguagens, assumindo sua função paratextual passível de múltiplas interpretações e não somente como a tradução das palavras em imagens”.
Para produção das ilustrações, um dos elementos de maior importância é a pesquisa de referências. Deve-se atentar para o contexto em que se passa a história, geográfico – mesmo quando se tratam de lugares fictícios, e temporal, para construir cenários e figurinos coerentes.
Além disso, é importante dar ênfase aos aspectos descritos pelos autores, em particular aqueles simbólicos ou emblemáticos, que caracterizam os personagens e/ou que têm particular importância para a trama.
Como estudo de ilustração, foram desenvolvidas três imagens referentes a três trechos e momentos importantes do livro “Cem aos de solidão”.
Esses trechos foram escolhidos porque se complementam entre si, trazendo uma síntese da jornada do personagem principal, José Arcádio Buendía:
- O assassinato de Prudêncio Aguilar, cometido pelo próprio José Arcádio Buendía;
- A partida de Buendía da cidade, com Úrsula e outros moradores – momento em que passa a ser atormentado pelo espírito de Prudêncio;
- O definhamento do próprio Buendía, quando só é capaz de se comunicar com o espírito de Prudêncio e passam longas horas falando sobre rinhas de galo.
Todas as ilustrações foram produzidas à mão e finalizadas em nanquim, buscando construir uma identidade, homogeneidade e coerência entre si, como é próprio e exigido em um processo de ilustração literária.



Entre material original, imaginação e técnica
O papel do ilustrador literário situa-se numa delicada proporção entre liberdade e determinação.
Cabe a ele fazer essa mediação entre os conceitos imateriais – mas que denotam uma visualidade – que são as palavras, e uma realização visual que, ao mesmo tempo, deve preservar as caraterísticas e determinações da sua fonte, tanto quanto oferecer alguma perspectiva criativa para traduzi-la imageticamente.
Nesse sentido, o processo envolve uma depuração do material de origem, procurando não apenas lê-lo, mas encontrar nele as melhores passagens e os elementos que melhor sintetizam o escopo da obra.
O papel do ilustrador de livros consiste, portanto, de uma cadeia de escolhas – das passagens do livro a ilustrar, dos materiais e técnicas a serem empregados, do estilo a ser utilizado etc. – que devem mais do que se adequar, mas responder, da melhor maneira possível, às eventuais demandas editoriais de cada edição.


Um material rico e extenso, como é o livro “Cem anos de solidão”, traz um verdadeiro desafio ao ilustrador: ilustrar as passagens mais icônicas, como a chuva de flores ou a levitação do padre, mas que já trazem uma pungência iconográfica no nível das palavras, ou procurar outras passagens, que talvez não tenham de partida tanto apelo visual, e oferecer-lhes uma identidade imagética?
Além de tudo, cabe ao ilustrador estabelecer uma coerência entre as imagens que produz, de modo a desenvolver um universo homogêneo e integral que seja adequado à história contada. Trata-se de uma dupla coerência, com a obra, e das imagens entre si.
Por fim, cabe mencionar novamente a inesgotabilidade de possibilidades que uma obra literária propõe. Essa diversidade pode ser vista apenas pela comparação dos três trabalhos de ilustração aqui apresentados. Assim, as ilustrações, ao mesmo tempo que promovem o material original, nunca verdadeiramente o solapam.
Mesmo uma adaptação audiovisual como a da Netflix, que tem um amplo alcance de público, continua sendo apenas uma forma de tradução visual da obra de Gabriel García Marquez, cujo imaginário permanecerá, tal como a família Buendía, por incontáveis gerações, promovendo novas e contínuas reinterpretações, seja pelos próprios leitores, seja por artistas, videomakers e ilustradores.
Agradecimentos:
Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais
(FAPEMIG), que fomentou a bolsa de Iniciação Científica deste trabalho, resultando na pesquisa de TCC de um de seus autores e em trabalho publicado no Congresso Internacional de Educação e Inovação (CIEI) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).
Referências:
ANDRADE, J. P. Z. O papel da ilustração no livro-ilustrado: uma discussão sobre autonomia da imagem. In: Simpósio Internacional de Letras e Linguística, 4., 2013, Uberlândia. Anais […]. Uberlândia: EDUFU, 2013.
AZEVEDO, R. Pensando em ilustrações de livros. Linguagem e linguagens. Série ideias 17. p. 45-48, 2021.
GUIMARÃES, L. Realismo mágico. Mundo da Educação: 2020. Disponível em:
https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/realismo-magico.htm. Acesso em: 22 nov. 2023.
BINAH. Imagem narrativa e ilustração de livros. Binah, Espaço de Arte, ago. 2022. Disponível em: https://binahespacodearte.com.br/imagem-narrativa-e-ilustracao-de-livros-3/. Acesso em: 13 dez. 2024.
LEGELSKI, F. História conceitual do Realismo Mágico – A busca pela Modernidade e pelo tempo presente na América Latina. Almanack. Universidade Fderal de São Paulo – UNIFESP: Guarulhos, v. 27, p. ep00121, 2021.
MÁRQUEZ, G. G. Cem anos de solidão. Buenos Aires: Record, 1982.
SADER, E. Ditaduras Militares. São Paulo: Portal Contemporâneo da América Latina e Caribe, 2021. Disponível em: https://sites.usp.br/portalatinoamericano/pt/espanol-dictaduras-milita res. Acesso em: 23 dez. 202.













Parabéns Lucas e toda a equipe pelo belíssimo trabalho.
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